Por um ano pior

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A essa altura do calendário, começamos a tomar ciência de que nossa dieta de ano novo tinha metas otimistas demais. Na verdade, é bem possível que muito do que entrou em nossa lista de resoluções padeça do mesmo mal. A culpa pode ser dos fogos de artifício. Pode ser também da euforia das comemorações. Mas também não deixa de ser fruto de uma certa indústria do otimismo.

Sim, o otimismo hoje é um produto. É fácil encontrá-lo nas listas de livros mais vendidos, nas palestras do Youtube e nas mensagens de Whatsapp. O otimismo é também o estandarte do coaching, a seita empresarial da pós-modernidade.

Ser algo otimista, claro, não é um mal em si. Acordar a cada dia acreditando na indubitabilidade da própria desgraça pode não ser bom. Estudos têm mostrado, inclusive, que ter uma perspectiva favorável sobre o futuro pode ajudar as pessoas a se engajarem mais nos seus afazeres, a cuidarem melhor da saúde e até mesmo a serem algo menos pobres.

Mas o otimismo pode ser uma distorção. Autor de best-sellers como “Poder sem Limites” e “Gigante Interior”, Tony Robbins, vejam, dá seu diagnóstico sobre a depressão: “Se você está deprimido, você criou e produziu esse show que chamou de depressão (…). Para ficar deprimido, você tem de olhar sua vida de maneira específica.”

A lógica de Robbins é fina flor do otimismo de prateleira: para ser ou ter, basta querer — e investir algum em palestras online. A genética e a química não ousarão contrariá-lo se você, de fato, decidir não criar mais sua depressão.

Esse raciocínio ignora qualquer determinante do mundo real que leve alguém à doença, à tristeza ou à bancarrota. Em última instância, a culpa de suas misérias é toda sua. Pensando bem nessa tese, não é difícil entender porque tantas empresas gastam fortunas em palestras de otimismo free-style para seus funcionários.

Mas o otimismo barato é um mau negócio. Psicólogos já mostraram, por exemplo, que os que mais fantasiam com um futuro positivo tendem a conseguir piores notas na faculdade e tendem até mesmo a desenvolver mais sintomas de depressão. Imaginar um futuro dourado parece fazer que as pessoas se preocupem mais em planejar como gastar sua fortuna e menos em como consegui-la.

O maior perigo dessa filosofia, no entanto, não está nos desastres individuais, mas nas catástrofes coletivas que ela alimenta. Imaginar que o aquecimento global irá se reverter pela energia de nossos pensamentos positivos ou que remédios para gases irão debelar uma pandemia pode ser um pouco decepcionante.

Vale a pena, então, perguntar se toda a onda de antirrealismo em que afundamos — desde a terra chata ao complô sino-comunista da Covid — não é um reflexo desse bazar de pensamentos positivos. Quem sabe a melhor maneira de trabalhar pelo melhor não seja esperar pelo pior.

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