Por um novo Brasil Colônia: voltamos, Portugal!

Manifestação de monarquistas no Rio de Janeiro em 14 de junho de 2020 (Colagem sobre foto do Facebook)

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Começou despretensiosamente. E é claro que muitos já estranhavam desde então.

— Monarquia não é uma coisa meio antiga?

Mas alguém disse que ainda se usava em algum canto da Europa e a bem da verdade é que ninguém levava aquela ideia muito a sério. E a coisa foi indo aos poucos. De modo que o hábito ia tornando normal o estranho, já que vinha diluído em pequenas doses.

O primeiro problema foi o rei. Já há muito não se tinha. E restaurar a monarquia sem o rei pareceu a todos uma completa tolice. Bom, havia sim, seus descendentes, mas não inspiravam muita admiração. Os que sobravam da família real tinham como ofício, em sua maior parte, apenas o desemprego. Uns mais esforçados até vendiam broches com o brasão do Império. Mas, é claro, não tinham a pompa requerida.

— E se a gente voltasse com os reis antigos? Alguém propôs.

Obviamente não se podia ressuscitar Dom Pedro. A ideia era como que ir ficando com monarcas simbólicos enquanto ninguém aparecia com uma ideia melhor.

Assim foi feito. Em pouco tempo, os adeptos da nova monarquia passaram a prestar homenagens aos reis, príncipes e princesas.  Coroas de flores se espalhavam pelas estátuas de toda a antiga família real. Músicas, celebrações. Louvavam os monarcas de bronze como se vivos estivessem.

As festividades se repetiam a cada semana. Em honra da solenidade, na presença da realeza de metal, os súditos passaram a se trajar como a ocasião requeria. Vestidos vitorianos, anáguas, chapéus, lenços, capas e bengalas. Mesmo desafiados pelo calor intenso, a corte, como forma de distinção, ia assumindo as novas vestimentas também no dia a dia.

Embaralhados nas contas, desistiram da ideia em prol de uma mais glamurosa. Os monarquistas resolveram se oferecer para serem recolonizados por Portugal. A iniciativa, obviamente, esbarrava em toda a sorte de aspectos políticos e legais. O governo lusitano sequer se deu ao trabalho de responder ao ofício vindo do Brasil, que reivindicava a desindependência.

Óbvio, agora o movimento já causava grande estranhamento, que só aumentou com a circulação das charretes. Os carros se viam obrigados a disputar as vias com os veículos movidos a cavalos. Isso quando não se deparavam com liteiras, às quais os monarquistas aderiram em substituição ao Uber.

Nesse ponto, a história já não tinha mais tanta graça e os que se riam dos cortesãos começaram a ficar revoltados quando certos médicos, adeptos ao movimento, passaram a receitar orações, sanguessugas e emplastros. Tudo tem limite.

Já era tarde. A guarda imperial, de baionetas em punho, repreendia os revoltosos. A situação já bem podia virar uma guerra civil. Mas, no fundo, no fundo, os opositores acreditavam que aquilo não tinha como ir para a frente. De modo que a guerra não se fez por certa falta de ânimo.

Se tornando maioria, os cortesãos já perdiam muitos pudores. Não tardou quererem voltar com a escravidão. A proposta, no entanto, causou grande comoção entre os próprios monarquistas. Não porque lhes parecesse em algum sentido estranha. A questão era de fundo econômico. Os assalariados, mesmo ganhando bem pouco, eram obrigados a se abrigar, se locomover e se alimentar a suas próprias custas. Saíam, na ponta do lápis, mais baratos que os escravos, de modo que a troca do sistema podia acabar um tanto desvantajosa aos que procuravam mão de obra.

Manifestação do Círculo Monárquico Brasileiro em Brasília em 13 de junho de 2020 (Fonte: Facebook)

Embaralhados nas contas, desistiram da ideia em prol de uma mais glamurosa. Os monarquistas resolveram se oferecer para serem recolonizados por Portugal. A iniciativa, obviamente, esbarrava em toda a sorte de aspectos políticos e legais. O governo lusitano sequer se deu ao trabalho de responder ao ofício vindo do Brasil, que reivindicava a desindependência.

Mas os cortesãos já tratavam Portugal por capital, mesmo que à revelia. E se foram aos montes para Lisboa. Para agradar aos da metrópole, passaram a falar ao modo que escrevia Camões. Ninguém os entendia e talvez nem eles entendessem a si mesmos. Mas parecia, a essa altura, que o mais recomendável fosse evitar mesmo qualquer entendimento do que falavam.

E assim, as estátuas dos antigos monarcas portugueses foram se enchendo também de flores e homenagens. Agora, a corte causava estranhamento em todo o mundo. E os monarquistas brasileiros, orgulhosos, estampavam as capas da imprensa mundial. Eram a elite do atraso!

Não tardou empolgarem outros pelo globo. Nos Estados Unidos, as vestimentas estranhas começavam a serem flagradas na rua de forma ainda um tanto dispersa.

— Mas monarquia não é uma coisa meio antiga? Alguém perguntou.

— Parece que ainda se usa em algum lugar da Europa…

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