Problemas Modernos

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Os problemas modernos são curiosos. No outro dia, tive de enfrentar a minha nomofobia — angústia por estar sem telemóvel — e foi dramático. Ou melhor, dramático tanto quanto um problema de primeiro mundo pode ser: não ter telemóvel na rua durante uma hora.

A coisa começou logo de maneira estranha. Entrei na loja e a segurança recebeu-me com um “mãos ao ar”, apontando algo na minha direção. Afinal era só um termómetro. Como a minha temperatura estava aceitável, fui encaminhado para a zona de reparações, um mar de luz branca, a la 2001 Odisseia no Espaço, que deixa os clientes atarantados. O diagnóstico, já esperado, era que algo precisava de ser substituído. O que eu não contava era com o facto de o senhor me dizer que, como tinham a peça em ‘stock’, a podiam substituir no momento.

Sem pensar nas consequências dos meus atos, aceitei o preço e a reparação. O homem recebe o telemóvel, tira a capa, passa-ma para a mão com o cartão SIM e diz: “pode voltar dentro de uma hora”. Foi nesse momento que me atingiu a gravidade da situação e disse “hmm, acabou de me tirar o telemóvel, assim nem sei que horas são”. Eram 17H43. Sem jeito, meti a capa do telemóvel no bolso das calças (para apoio moral) e saí.

Como nesse momento ainda não sabia o que era nomofobia, a minha primeira reação foi inesperada. Olhei à volta e pensei — no centro de Barcelona — “estou a 10 minutos de metro de casa, não tenho telemóvel, mais vale voltar, conectar-me no computador e volto numa hora”. Mas, afinal, “conectado a quê”? Então decidi dar um passeio.

O “tem horas que me diga” já não pega, mas descobri que na Plaza de Cataluña alguns edifícios têm relógios no topo! Seis anos em Barcelona e foi a primeira vez que reparei neles. Também aprendi que, sem telemóvel, farmácias, painéis de publicidade e paragens de autocarro são os nossos melhores amigos na hora de saber as horas.

Comecei a descer pelas Ramblas e a falta de acesso ao mundo virtual obrigou-me a prestar atenção ao que tinha à frente. Numa cidade, caminhar significa ignorar as pessoas à nossa volta. Quantas mais há, menos as vemos, em particular se nem olhamos para elas. Tive tempo de olhar para empregados de mesa a arrumar cadeiras, pessoas a escolher flores para comprar, um mundo de arquitetura ao levantar a cabeça. Nada fora do comum, mas tudo mais nítido que o habitual.

Claro que o vício não nos deixa de um momento para o outro. Chegado a uma passadeira, enquanto esperava pelo verde ponho a mão no bolso e, fruto de anos de condicionamento, tiro o telemóvel para ver nem sei bem o quê. É irónico: lemos notícias do outro lado do mundo e nem reparamos no que temos à frente.

Contudo, o mais difícil ainda estava por chegar. Passadas as Ramblas, perto da marina, há uma estátua — nada bonita , — de um casal a olhar para os barcos. Nesse dia tinham uma máscara na cara. O meu cérebro entrou logo em modo “redes sociais”. Tirar foto, partilhar, fazer comentário social, capturar o ‘zeitgeist’ e receber ‘likes’! Mas não havia telemóvel. Caminhei. Uns metros mais à frente e, na entrada de Barceloneta, o sal esfregado na ferida: um circo em digressão!

Não tenho provas fotográficas, por isso vão ter de acreditar em mim: carruagens antigas, uma tenda gigante no meio, muitas cores e eu a passar ao lado. Será que o ato de tirar fotos e partilhá-las acrescenta valor às nossas vidas ou acaba por ter um impacto negativo nas nossas experiências? Acho que é um pouco dos dois.

Depois de uns 45 minutos de caminhada — obrigado painéis de publicidade — comecei a subir de volta até ao centro. Os restaurantes já estavam fechados, as floristas continuavam na sua labuta. Cheguei à praça ao lado da loja, sentei-me num banco e respirei fundo. Hoje em dia é muito raro ter tempo de olhar à nossa volta e só estar, mesmo quando não há nada interessante a acontecer. Quando foi a última vez que se sentaram a apreciar o que está à vossa volta?

Depois entrei na loja — sem “mãos ao ar” desta vez — recuperei o meu telemóvel, paguei e saí. No metro de volta a casa, olhei à minha volta e vi caras enfiadas nos ecrãs. “Viciados”, pensei. Mas depois o meu telemóvel vibrou e esqueci-me da moral desta história.

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