Quando Juan Diego Flórez tirou o laço e nos levou ao céu

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Quando o whatsapp trouxe a vídeo-gravação, abria-a timidamente. Não havia referência ou autoria. Que seria desta vez?

Era um homem de quarenta e tal, talvez quarenta e muitos, mas com um cabelo endiabrado e ar travesso.

Parecia ainda um menino. Atravessou a orquestra com a viola e sentou-se na berma do palco, bem junto ao público.

«Are you having fun?», perguntou com um sorriso límpido.

«I am going to sing a very beautiful song. From Mexico…», atirou, como se ele próprio não acreditasse muito. Mas logo a seguir, tranquilizador: «You will see, you will know…»

(O menino espreitou pela porta para ver se a magnífica égua negra ainda lá estava. Queria que eles, meninos da cidade, a sentissem nervosa e mágica.)

É sábado, dia que normalmente aproveito para fazer um reset mental e resolver as pequenas-grandes coisas que não são imediatamente úteis aos rápidos dias úteis.

É também, normalmente, um dia mais esplendorosamente feliz. Os apitos dos dias frenéticos diluem-se e o dia não é normalmente uma “feira”, em que se vendem sapatos, grelos ou shampoos.

(Há assim algum tempo disponível para levar a égua negra a passear.)

É também véspera de domingo, um falso útil, a primeira-feira que antecede os verdadeiros dias úteis.

(Antes, há muito tempo atrás, não era assim. O domingo era sonolento. Até se ouviam missas pelas TVs dos vizinhos.)

Ouve: Hoje, sábado dia 2021.02.13, há muito tempo para ti. Descansa, ainda não é domingo.

Ah, e vai haver a finalização apoteótica do julgamento de Trump pelo Senado. Parece estar tudo decidido, mas nunca se sabe.

É, de qualquer forma, um bom espetáculo em perspetiva. (Nos EUA tudo funciona como espetáculo, onde há sempre bilhetes à venda.) Trata, pois, de arranjar um lugar.

Sintonizei a CNN. Ainda era cedo. Pus então a correr, em volume baixo, quase impercetível, o último “Eixo do Mal”, que não tinha visto. Tinha curiosidade em saber como estava.

(Foi um gesto temerário. Há meses que não via o programa, desmotivado por algum hipercriticismo inconsequente com jeitos de maledicência, que alguém sublinhava com doses abundantes de soberba narcisista e retórica pseudointelectual, a roçar o reacionário. Lamentavelmente, estes traços acentuaram-se com a crise sanitária e, em particular, com os confinamentos.)

«Fuh… Ahhh!», e o menino de quarenta e tal tirou o laço negro e ajeitou os colarinhos brancos com volúpia. O público, transmutado, expressou sonoramente o seu alívio.

(O público gostou definitivamente do espetáculo. E o menino também, pois estava descontraído e feliz. Que teria acontecido antes do encore?)

Soltou então as cordas e a voz, e parecia que algo de muito belo se libertava, melancólica mas poderosamente. Preenchia todo o espaço disponível na casa e parecia empurrá-lo para fora, pressionando já as plásticas janelas, que se deformavam e enchiam como balões.

Dicen que por las noches / Nomás se le iba en puro llorar / Dicen que no comía…

Os agudos frequentes. A extraordinária leveza e agilidade. A ressonância clara. Os músicos, na orquestra, alternavam entre o puro deleite, a concentração extática e a surpresa, a roçar a estupefação.

Ayayayayay cantaba / Ayayayayay gemía / Ayayayayay lloraba…

Uma longa e improvável extensão vocal, que fez o delírio da audiência. Alguém, que parecia Plácido Domingo, estava feliz e ternamente emocionado. Um de nós, aqui, chegava a lágrimas reais.

Que una paloma triste / Muy de mañana le va a cantar / A la casita sola / Con sus puertitas de par en par

Era altura de passar à varanda, abrindo definitivamente a canção ao mundo. A exuberante fénix vocal voaria por onde quisesse, levando-nos consigo e dissolvendo o confinamento. Chegou a hora de beijar os filhos e abraçar os amigos.

De passagem, claro, apagámos piedosamente o estertor do “Eixo do Mal”, que a fénix se encarregaria de regenerar, se quisesse e pudesse. A CNN já passava as imagens solenes dos gestores do impeachment, que pareciam narrar coisas extraordinárias.

(Saberíamos mais tarde. Agora era o momento da poderosa fénix.)

Cucurrucucú paloma / Cucurrucucú no llores…

Claro que era a “Cucurrucucú paloma”, a popularíssima canção do músico mexicano e compositor de música folclórica Tomás Méndez, incluída em tantos filmes e cantada por legiões de mariachis e conhecidos artistas, incluindo Alejandra Guzmán, Gaby Moreno, Joan Baez, Julio Iglesias, Silvia Pérez Cruz e Caetano Veloso! Como tinha sido possível não a reconhecer?

Há pelo menos duas explicações possíveis.

Uma é que a crise e o confinamento nos estejam a afetar a memória das coisas sublimes, mesmo que simples, despretensiosas e onomatopeicas como o folk sobre o “mal de amor”. Não é uma hipótese a desdenhar, dada a forte competição da matéria bruta, que nos chega às golfadas através da internet e dos media.

Outra é que quem cantava a canção não era um simples mariachi, conferindo-lhe uma tonalidade inesperada pela extraordinária modulação vocal. Esta é a minha hipótese preferida, pois imaginei desde o princípio que o artista seria, de facto, um tenor de primeira linha.

A pesquisa na internet fez o resto. O cantor desta “Cucurrucucú paloma”, que me chegou incógnita via whatsapp, é nem mais nem menos do que… o magnífico tenor peruano Juan Diego Flórez.

Obrigado, Juan, por teres soltado a fénix e dissolvido a lúgubre solidão, talvez para sempre. Quem quiser pode encontrar AQUI MESMO a sua versão.

O concerto foi, de facto, a soirée de Gala dos Embaixadores Rolex (Juan é um deles), com a participação da Orquestra Filarmónica de Viena. Foi dirigido pelo maestro Gustavo Dudamel e pelo tenor Plácido Domingo no Teatro alla Scala de Milão, em 23 de Junho de 2019.

A popular peça de Méndez conviveu assim com os clássicos Bizet, Donizetti, Puccini, Schumann e Verdi, mostrando, pela voz de Juan Diego Flórez, que não existem barreiras de género para o “bel canto”.

(Ou seja, Juan poderá ter dado um passo decisivo para fundar o seleto mas democrático grupo de “Os Mil Tenores”.)

Mostrou também que dispomos de inimagináveis recursos para elevarmos a nossa chorosa alma à condição sublime da fénix, que a resgatará do “mal do confinamento”, pelo qual, como espécie, somos aliás inteiramente responsáveis.

(O abominável vírus, convém lembrarmo-nos, é produto do Antropoceno, a época geológica criada pelo Homem. Ainda não tivemos, lamentavelmente, coragem para a definirmos com toda a clareza, para a integrarmos nos livros escolares e para revertermos o que ainda é possível reverter.)

A cultura e a beleza transformam-nos, atenuando a nossa condição bruta. Dá-nos assim a esperança de que tenhamos o engenho e a arte para destruirmos a fealdade tóxica das nossas pulsões suicidas.

O meu sábado de 2021.02.13 foi, pois, salvo pela fénix de Juan Diego Flórez, que foi navegando erraticamente pelas muitas outras obras que se encontram disponíveis online, como o recital do Teatro Colón de 2018.

Prestei, claro, menos atenção imediata a outros projetos. Mas esses podiam esperar.

(É, aliás, fundamental que deixemos de fitar obsessivamente os trumps longínquos e próximos, que se aproveitam do confinamento para nos sugar a alma.) 

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