Quando você é idiota quem sofre são os outros

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O humorista Ricky Gervais comparou uma vez a morte à estupidez: “Quando você morre, você não sabe que está morto. Só é doloroso e difícil para os outros. O mesmo se aplica quando você é estúpido”.

A máxima não é de todo sem fundamento. Os psicólogos têm, inclusive, uma explicação para isso: o efeito Dunning-Kurger. Essa hipótese se baseou num caso curioso. Em 1995, McArthur Wheeler teve a ideia de assaltar um banco se valendo de uma tinta invisível para camuflar o rosto. Quando a polícia encontrou Wheeler em sua casa, uma hora depois, ele ainda tentava entender como havia sido descoberto. A “tinta invisível” consistia simplesmente em suco de limão espremido. Justin Kruger e David Dunning, então na Universidade de Cornell, explicaram o caso com a seguinte lógica: as capacidades que um indivíduo precisa para julgar sua habilidade de fazer algo são exatamente as mesmas que ele precisa para fazer essa coisa bem. Ou seja, se ele não tem capacidade de fazer, provavelmente também não terá competência para julgar sua performance e, por conta disso, tende a superestimar suas habilidades.

O que mais impressiona nesse fenômeno é que, ao que parece, quanto mais incompetentes, mais as pessoas tendem a se superestimar. Os mais inábeis são precisamente os que se têm em mais alta conta. Segundo os estudos, conforme aprendem mais sobre um tema, os indivíduos começam a desconfiar de sua competência e vão progressivamente descobrindo que existem mais coisas entre o céu e a terra.

É claro que todo mundo está sujeito ao efeito do suco de limão. Todos têm algum domínio em que sua capacidade é limitada: finanças, saúde, esportes, alimentação… Quanto mais vasto o conhecimento humano, tão mais vasta se torna nossa ignorância potencial. Mas em alguns casos as consequências desse fenômeno podem ser dramáticas.

Nos Estados Unidos, não foram poucos os que tentaram explicar a inépcia orgulhosa de Donald Trump nos termos da teoria do limão. E no Brasil, a mesma lógica vale também. Como, a despeito de todos os sinais, os figurões da economia no país ainda podem manter algum grau de otimismo?

Não tem muito tempo, o ministro da pasta declarou que as finanças estariam decolando a partir de julho. Meses depois, a moeda não acumula mais que perdas, o desemprego continua em escala ascendente e o país mantém sua infeliz posição nos índices das agências de classificação de risco. E isso tudo parece ser a parte boa da economia. Muitos desconfiam que, com o fim dos programas de renda emergencial vigentes na pandemia, o Brasil estará mais rente ao colapso em 2021.

Mas nada disso parece abalar a confiança da equipe econômica. Provavelmente nenhum deles, por sua condição econômica, sentirá os efeitos de sua própria incompetência. E mais do que isso: a essa altura do campeonato, já se cabe perguntar se em alguma medida eles são capazes compreender como estão causando tamanho estrago. Enquanto a economia afunda, eles seguem se lambuzando de limão. E os que sofrem são os outros.

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