Que não se confine o pensamento

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Uma pandemia não é coisa que aconteça sem deixar marcas, é da pandemia numas quantas entradas que falarei.

Das palavras que coloriram ou ensombram esta ocasião. Do medo. Da incerteza. Da normalidade. Da loucura. Da solidão. Da navegação pelas estrelas. Da linguagem bélica. Da linguagem assente num certo jargão psicológico. De arriscar. Do tempo…

Em 1999 saiu um livro com um título premonitório: Cada vez mais rápido. O autor, James Gleick, a dada altura, dizia que “só numa era da velocidade poderíamos parar o tempo. Só numa era de velocidade teríamos necessidade de o fazer.”, ora de 99 até agora passaram mais de 20 anos e devo confessar que a resolução do País – sobre mandar ficar em casa toda a gente que tivesse casa para morar – me fez pensar que, finalmente, o ritmo seria outro e a possibilidade de travar a corrida estaria chegada.

Enganei-me.

Ainda que seja verdade que a velocidade foi alterada, parar não fez parte da equação. (Alguma coisa é falha quando se trava e não se chega a parar.) Nos carros convém levar depressa à oficina, não se brinca com os travões. Na vida, pelos vistos, só se a morte for quase iminente se deve mesmo abrandar… mas, oh, esperem, uma pandemia não seria razão para fazer isto? Travar a fundo. Aproveitar a fundo para repensar tudo e organizar tudo, organizarmo-nos para fazer melhor?

Devia ser. Pensei que era chegada a hora! Depressa percebi que tudo confluía no sentido do apressar o retorno à normalidade.

Logo nova surpresa se vislumbra, ou melhor, salta à vista: Qual normalidade? A loucura da normalidade, é também mais um título de um outro autor (Gruen, 1995) lá, no livro, diz-se que fugimos do nosso deserto interior, do nosso vazio. Diz-se que fugimos velozmente para não nos sentirmos tentados/as a assumir esse mesmo vazio e, na pressa, tudo levanta voo e segue correndo, connosco. Só que vamos ficando cada vez mais sós, estranhamente acompanhados/as por essa vertigem do não ter tempo.

Com a obrigação de ficar em casa, retidas as famílias num espaço comum, mas, pelos vistos, vivido sem mais que a partilha de instantes – antes da pandemia, logo se ouviram as preocupações em nome da sanidade mental, do equilíbrio, da gestão do espaço pessoal e da reserva desse espaço: tudo inicialmente escutado com um misto de receio e ironia. Por todas as frentes que tais recomendações implicitamente comportam. A saber (1) ter casa; (2) estar junto; (3) estar consigo mesmo/a apesar de estar na presença constante de outrem; (4) garantir a sanidade mental… mais uma vez, só preocupações da dita normalidade de onde, parece, toda a gente vinha. Como se toda a gente tivesse teto, companhia, quisesse habitar-se, pudesse separar corpo e mente.

Claro que não é a mesma coisa trabalhar fora de casa, sair todos os dias e cada qual ir para o seu lugar, cumprir com os seus afazeres, para voltar a estar perto mais tarde no dia. Claro. Não é a mesma coisa, mas nada mais seria como tinha sido e a escolha estava à porta, aliás, dentro de portas.

Sem treino, sem rede, com mais ou menos suporte: de um dia para o outro, foi toda a gente convocada a viver de outro modo. Sem sair para café, sem ir às compras, sem cinema, sem passeios na rua, sem jantares, sem visitas, sem visitar… podíamos ter tudo isso podendo aceder às máquinas, os telemóveis, computadores, até a escola se fez entrar em casa pela televisão, esse cubo que fazia parte da família quando era eu miúda ainda. Mas… esperem! Então não andávamos há tanto tanto tempo a reclamar porque já ninguém estava com ninguém, porque, mesmo estando próximos fisicamente, todo mundo vivia conectado através das redes e não na presença dos presentes? Assumidamente, parecia que chegávamos a uma casa de um jogo de relação que, se antes nem parávamos para lhe dar atenção, agora que tínhamos tudo para o fazer, no fundo, o que faltava era querer mesmo fazê-lo.

Pensar o sentido das coisas. Pensarmos o nosso próprio sentido.

Andavamos a navegar pelas estrelas ou estaríamos, há muito tempo, à deriva?

Logo surgiram aquelas ideias força, difundindo o brilho da grandeza nacional, com hino à janela e palmas de apreço nos primeiros dias. Isto era uma guerra (diziam) e o inimigo, de tão comum, finalmente far-nos-ia juntar valias numa luta que nos uniria.

Só que não.

Se fosse uma guerra o medo seria muito, muito outro. Se fosse uma guerra, a destruição, de tão evidente, não deixaria dúvidas nem lugar a afirmações de certezas sobre tudo e mais alguma coisa – até o comportamento da difusão da infeção – como se projeções fossem absolutos e hipóteses: certezas nascidas.

Foi preciso explicar vezes sem conta (e não chegou) que o conhecimento não é dado adquirido, que ciência é o trabalho no domínio da incerteza, que a incerteza, ela mesma, não é a inimiga!

O problema, o verdadeiro grande problema que a pandemia pôs a descoberto por estes dias, foi a impressão peregrina que as pessoas se acostumaram a ter como certa, necessária e segura de que controlam a vida. Quando, na verdade, não controlamos quase nada. E isso não tem de ser um susto. Isso não é um mal. Se antes de tudo houver um sentido.

A urgência do controlo, ou da ideia de tudo poder controlar, foi uma fúria que  tomou conta de uma estranha forma de “assumir” cidadania: parece que controlar as coisas da vida tem a ver exclusivamente com a salvaguarda de direitos por si só, direitos desligados de responsabilidade, direitos de afirmação do querer, assim como quem diz “querer é poder”, sim, é. Querer é poder, mas é um poder imbuído de sentido.

Eu quero poder decidir e faço-o; eu quero poder escolher e escolho; eu quero poder ser e sou! Seremos? É nesse “ser” que tudo se joga, diz-se do Humano que é intrinsecamente social…,diz-se. Falta fazer-se disso prova e será esta a hora agora.

Que cada pessoa possa escolher para si o que importa é que devia ser a razão das nossas lutas. Escolher para si o que importa, importando-se com o impacto de cada escolha em cada Outro para além de si, claro.

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