Quem liga?

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Depois de certa idade, começamos a perceber uma angústia geracional: filmes, livros e personagens que até outro dia eram lugar-comum passam a se perder da memória coletiva. Seinfeld é uma das perdas da minha geração. O sitcom foi uma das raras vezes em que o mainstream conseguiu escapar do romantismo bobo. Jerry Seinfeld representava o papel dele mesmo (na verdade, uma mistura dele e de Larry David, coautor da série) na Nova Iorque dos anos 90. Volta e meia, conversando sobre alguma situação, Jerry confrontava as angústias de um ou outro personagem com um “Who cares?”.

A expressão talvez seja a síntese de um realismo sarcástico que ainda era possível naquela época. Existia, até então, um rescaldo dos movimentos de contracultura das décadas de 1960 e 1970. Isso, somado ao pragmatismo e ao individualismo norte-americanos, podia ser um antídoto para as idealizações que sobrevivem desde o Romantismo e que floreiam Hollywood. 

Hoje, no universo das redes sociais, o “quem liga?” talvez faça falta.

Já não é segredo para ninguém que o tempo de tela e o consumo de mídias sociais estão associados a um mal estar de seus usuários. O uso de aplicativos dessa natureza está entre os fatores que podem explicar a perda da nossa capacidade de concentração. Além disso, quanto maior o uso das redes, mais as pessoas tendem a se sentir deprimidas e, paradoxalmente, sozinhas.

Apesar disso, o Instagram, para citar apenas uma plataforma, tem, em um mês, quase 1/6 da população mundial em usuários ativos (na posição modesta de quinta rede mais usada). Muitos desses usuários gastam um tempo precioso do seu dia decidindo qual o melhor filtro para uma foto ou escolhendo rigorosamente as palavras de uma postagem. Os brasileiros, por exemplo, passam, em média, 3 horas do seu dia nas redes.

Mas, diante disso, vale a pergunta, quem liga para as redes sociais? 

Eis um teste interessante: você seria capaz de lembrar qual foi a última postagem que curtiu no Instagram? Existe uma grande chance de que você não tenha a menor ideia. As palavras e imagens que seu amigo virtual escolheu com cuidado desapareceram em alguns segundos da sua cabeça, perdidas em um mar de informações. 

Embora sejamos atraídos por essas plataformas, crendo que alguém possa estar interessado em consumir frações da nossa vida, poucos provavelmente se importam com o que postamos lá (assim como nós temos pouco ou nenhum interesse na última experiência enológica de um amigo). 

É claro que toda essa dinâmica de produção de conteúdo nas redes tem muito a ver com uma certa espetacularização da vida, na qual o comportamento das celebridades digitais vai se constituindo como um template para nossa performance na internet. E curiosamente, nos pegamos postando a foto de um café da manhã frugal, como se estivéssemos fingindo viver a vida comum que realmente vivemos.

Mas será que, da próxima vez que estivermos rolando a nossa galeria de fotos, não valeria perguntar qual o sentido disso? Para quem, afinal, estamos tentando vender nosso marketing pessoal? Será que alguém, de fato, liga?

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