Questão de fé

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Imagino que já esteja bem estabelecido que o liberalismo, ou neoliberalismo, como queiram, é algo assemelhado à religião. É preciso ter fé, muita fé para aceitar seus ditames. Como toda religião que se preze, seus dogmas e pressupostos são por demais intrincados para que qualquer cidadão comum os perceba. As divinas escrituras de Washington, que parecem datar de 1989, também não são de fácil compreensão. Assim, tais como os padres, temos que ter nossos intérpretes dos cânones sagrados que nos revelem a verdade e nos conduzam para o paraíso das contas públicas equilibradas e da perfeita eficiência do livre mercado concorrencial.

Pois bem, sei que existem hoje novos pregadores na praça, mais incisivos, inovativos e agressivos. Uns propagam suas próprias versões da palavra de Cristo, outros as de Hayek. Não raro ambos prometem cumprir o impossível, uma síntese dos dois. Mas assim como a Igreja de Roma talvez ainda seja o farol do cristianismo ocidental, é a mídia tradicional a grande missionária do capital. Em seu seio, evidentemente, não pode haver espaço para dissidentes. O cisma deve ser evitado a todo custo. Imposto sobre herança e grandes fortunas, taxação progressiva e direitos trabalhistas são heresias. Empresas estatais eficientes, servidores públicos bem remunerados e aposentadorias dignas são artimanhas do demônio. Renda mínima permanente, sacrilégio! O discurso deve ser único e coeso, não importa o jornal ou o canal de tv. Mesmo em meio a uma pandemia que provou que o mercado nos vira as costas na urgência.

O não conhecimento dos desígnios de Deus é a explicação corrente para quando a tragédia se abate sobre nós ou há qualquer desventura que possa ameaçar nossa fé. Em geral, essa evocação da vontade divina incompreendida, ou não devidamente atendida, tem o efeito paradoxal de aprofundar a devoção, sobretudo em momentos de aflição. O que deveria trazer dúvidas, costuma trazer mais certezas. Pois também é perfeitamente explicável a razão de milhões de novos postos de trabalho prometidos com a reforma trabalhista se transformarem em milhões de demissões, ou os bilhões em investimentos privados que jorrariam como leite após o congelamento dos gastos públicos por vinte anos nunca terem chegado: não liberalizamos o suficiente. O deus mercado é caprichoso e exigente, se tudo deu errado é porque não o agradamos o bastante. É preciso fé e obediência!

E então foram incensadas pela imprensa e aprovadas pelo Congresso a reforma da previdência, a privatização da água e do saneamento básico e a nova lei do gás. Sim, do gás! Essa certamente nos valerá quatro milhões de empregos, cortará pela metade o custo do combustível e incrementará em 0,5% o Produto Interno Bruto da nação, diz o maior jornal impresso do Brasil. Mas por via das dúvidas, é melhor já ir preparando as próximas ofertas para apaziguar o Nosso Senhor Mercado. Correios, Telebrás, Banco do Brasil e Petrobrás são as virgens mais valiosas no aguardo do sacrifício ritual.

Mas há uma sensível diferença entre as duas crenças. Se a fé no conforto eterno no Reino dos Céus pode persistir inquebrantável mesmo em meio à distopia da terra dos homens, a prosperidade apregoada pelos arautos do liberalismo desvairado precisa ser materializada ainda em vida. Esta é uma razão, dentre outras tantas, que explicam a crise de credibilidade por que passam as grandes empresas de comunicação. Ao menos no campo do terreno, não se pode insistir em prometer o impossível impunimente.

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