Saites, blogues, tuites e laiques

Khachik Simonian (Unsplash)

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“Key note speaker”? Então “orador principal” não resolve, meus? Como regra geral, defendo o aportuguesamento das palavras estrangeiras, mas com bom senso

Num restaurante em Lisboa, pergunto ao garçom a palavra-passe do wifi (uaifai). Ele responde-me que a senha do uifi (mais exatamente, uí-fi) é… Inevitável não pensar na grande aventura da língua portuguesa pelo mundo. É o que tentarei fazer, de maneira abreviada e despretensiosa, na coluna desta quinzena.

Como é que essa língua, neta do latim e filha do galego, se tornou a quinta ou sexta língua mais falada do mundo, usada por cerca de 280 milhões de pessoas espalhadas por todos os continentes? Todo o mundo conhece a resposta: a chamada expansão marítima portuguesa, a partir do século 15, foi o principal fator desse facto. O detalhe que muitos – sobretudo os que acham ser donos naturais da língua – esquecem é que a língua portuguesa é, desde a sua formação, uma língua de misturas.

Desde logo, o português, tal como outras línguas, mais conhecidas (espanhol, galego, catalão, francês, italiano, romeno) e menos conhecidas (sardo, provençal, rético), é uma língua proveniente da expansão do latim no continente europeu. Durante tal processo, o latim, naturalmente, teve contacto com outras línguas faladas na Europa, daí resultando o surgimento dos idiomas acima mencionados.

A Península Ibérica, onde se situa Portugal, começou por ser invadida por povos germânicos (vândalos, suevos, alanos, visigodos), a quem os romandos chamavam “bárbaros” (repare-se, a propósito, no significado atual da palavra “vândalo”). A primeira grande mistura do latim aconteceu, portanto, com as línguas faladas por esses povos.

Em 711 aconteceu a invasão árabe e, com ela, a chegada da língua árabe, cujas marcas no português são por demais reconhecidas. A reconquista do território português aconteceu cinco séculos depois, em 1249, tendo desse processo nascido três línguas: galego-português, castelhano e catalão. O galego-português surgiu na região onde hoje se situa a Galiza, a norte de Portugal, tendo-se essa língua estendido até ao sul do referido país, à medida que a sua reconquista ia ocorrendo. Durante a Idade Média, o galego-português permaneceu como o idioma que manteve a unidade linguística entre a Galiza e Portugal.

Desde o seu nascimento, por conseguinte, a língua portuguesa nunca foi uma língua “pura”, se é que tal aberração existe. O segundo grande momento da sua diversificação aconteceu com a expansão marítima de Portugal e a constituição das colónias portuguesas na América, África e Ásia. Em todas essas regiões, natural e inevitavelmente, o português sofreu mudanças, resultantes do seu contacto com as línguas faladas pelos povos colonizados. Essas mudanças foram tão profundas e consistentes, em alguns lugares, que deram lugar a novas variantes da língua portuguesa.

O caso mais paradigmático é o do chamado “português brasileiro”, resultante do contacto com a língua portuguesa com as línguas indígenas, as línguas africanas do ramo bantu, as línguas de imigração e as línguas de fronteira. Dois fatores contribuíram para o sucesso da constituição dessa variante e para os seus rumos: a independência do Brasil, em 1822, e o peso demográfico dos africanos levados de África, como escravos, para o hoje maior país de língua portuguesa. Como já escrevi aqui em texto anterior, o contributo das línguas africanas, sobretudo angolanas (Kimbundu, kikongo e umbundu), foi indesmentivelmente decisivo para a formação da variante brasileira do português, em termos de léxico, pronúncia e sintaxe.

As colónias africanas de Portugal – Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe – tornaram-se independentes há menos de 50 anos, pelo que, nesse sentido, compreende-se o peso determinante da variante lusitana da língua portuguesa, em particular a nível da norma culta e do registo oficial. Mas, a nível popular, as coisas passam-se de modo bem diferente. Não tenho dúvidas que novas variantes do português estão em formação em África e que elas são inevitáveis. O que se espera é que os linguistas façam o seu trabalho bem feito e os políticos saibam, em devido tempo, tomar as medidas pertinentes que se impõem. O equívoco principal a evitar é cair na tentação populista e demagógica de considerar que a fixação de novas variantes do português é permitir que cada um use a língua como quiser, sem quaisquer regras, ou seja, o caos.

Tudo isto é, repito, inevitável. Por isso, não faz o menor sentido o sentimento de alguns setores portugueses mais conservadores em termos culturais e linguísticos (o que inclui personalidades politicamente “progressistas”), que insistem em defender uma inexistente “pureza” da língua e que, caricatamente, se acham os proprietários da referida língua. Como escreveu o angolano José Eduardo Agualusa no passado dia 14 de agosto na sua coluna no jornal O Globo, “persiste ainda no país de Fernando Pessoa um certo sentimento imperial (e uma desoladora ignorância) em relação ao comum idioma materno”.

Agualusa diz ainda: – “Os portugueses mostram grande orgulho na universalidade e no alcance da língua que falam, mas quase sempre se esquecem de acrescentar que esse alcance – é a sexta língua mais falada no mundo – se deve aos 211 milhões de brasileiros”. Eu acrescento apenas que o número de angolanos para quem, segundo o censo de 2014, o português é a respetiva língua materna (71% numa população de pouco mais de 30 milhões de pessoas) já é superior a toda a população de Portugal (pouco mais de 10 milhões de pessoas). Angola, portanto, perfila-se como o segundo país, depois do Brasil, a contribuir para a expansão da língua portuguesa no mundo, sendo apenas necessário tomar as medidas cientificamente corretas e politicamente pragmáticas que se impõem.

Voltando ao “uí-fi” de que me falou o garçom do restaurante português em Lisboa. Os portugueses que se acham donos da língua e acham que os demais usuários da mesma “falam mal”, mas que, no entanto, se rendem sem dor, pelo contrário, a toda a sorte de estrangeirismos, sobretudo, atualmente, aos anglicismos, deveriam olhar-se no exemplo desse garçom. Sim, por que razão “uaifai” e não “uí-fi” para dizer, na nossa língua comum, “wifi”? Já agora, aproveito a onda para sugerir “saite”, em vez de “site”, “tuite” e não “tweet” e “laique”, em detrimento de “like” (a propósito, em que momento deixámos de dizer “gostos” ou “curtidas”?). Blogues, em vez de “blogs”, já existe. Vamo simbora dizer uí-fi, saites, tuites e laiques? Mbora lá?

Provocação, claro. Ou talvez não. A verdade é que a variantes brasileira e as africanas (em formação) da língua portuguesa são muito mais plásticas do que a variante original, como o demonstra a sua maior propensão para a transcrição foneticamente literal dos estrangeirismos e para a criação de neologismos. Para dar dois exemplos, só algum tempo depois de ter escutado um brasileiros dizer que algo era “hilário” é que eu entendi o que era, quando topei com o adjetivo “hilarious”, do inglês (no bom rigor, entretanto, essa palavra é de origem latina, tendo ido parar ao inglês por essa via, coisa que soube muito depois); por outro lado, achei simplesmente o máximo quando escutei um passageiro angolano no aeroporto de Luanda, há muitos anos, dizer que apenas lhe faltava “fitacolar” a mala. Desde esse dia, faço campanha pela entrada do verbo “fitacolar” nos dicionários de língua portuguesa.

É óbvio que o aportuguesamento de palavras e expressões estrangeiras deve ser feito com algum bom gosto estético. Conta-se que o ditador português Salazar pensou, em dado momento, proibir o uso da palavra “futebol” (do inglês “football”), substituindo-a por “bola no pé”. Anedota ou não, diga-se, com toda a ênfase: – Assim não dá! 

O mesmo não acontece, contudo, com a expressão “key note speaker”. Literalmente, essa expressão faz subir à minha cabeça todos os meus calundus ancestrais. Então “orador principal” não resolve, meus?

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