Sentimento sabático

“Has there ever been a time when the future of human society seemed so uncertain as now?” (R. G. HAWTREY in Economic Destiny, 1944)

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ESTAMOS EM 1944. Tudo é incerto. A Guerra prossegue na Europa e no Norte de África e no distante Oceano Pacífico. Tudo está em aberto. Haverá um “depois”? Mas é difícil discernir sentidos ou um sentido. Haverá uma Ordem depois da Desordem, mas qual? Naquele tempo há, porém, uma certeza: há que pensar sobre o que levou à catástrofe e há que pensar sobre o que fazer quando terminar o conflito. Aquela guerra era uma oportunidade. Aquela guerra era como um Sábado que não podia ser desperdiçado. Um Sábado com custos pesadíssimos, mas que teria de servir para pensar o presente e para delinear um futuro para as sociedades humanas. Para pensar nos valores que transcendem o quotidiano, mesmo o mais negro dos quotidianos.

R. G. Hawtrey adverte: “É preciso um pensamento claro, um pensamento claro sistemático e objectivo, sem lugar para apelos retóricos.” Por isto mesmo, mas não só, este livro tem um lugar especial na biblioteca por onde deambulo e passo os meus dias.

Além do mais, não existem fronteiras claras entre o “económico” e o “político”. O economista Hawtrey sabe bem como é ténue a fronteira entre estes campos e sabe bem que as “medidas económicas” e “as instituições não podem estar divorciadas dos padrões éticos.”

Estamos em 2020, e neste prolongado “Sábado” que estamos a viver tudo parece inusitado. A actividade incessante, a dinâmica instável das forças económicas, deparou-se com uma obrigação (sanitária mas ditada por um imperativo moral) de parar, de cessar. Alguém já chamou, e bem, a este momento presente A Grande Paragem. Um Sábado é também isso mesmo: paragem. Para descansar, para pensar no Transcendente. Pode até ter que ver com um deus particular: Saturno, o deus romano que equivalia a um outro deus grego: Cronos.

Quando se pára e se começa a pensar talvez se fique mais perplexo. Mais inquieto. De repente, deixámos de perceber se devemos continuar a apreciar a “riqueza” como até aqui ou se será de preferir o bem-estar… De repente, descobrimos um sentido para a “frugalidade” ou se será de preferir voltar ao desperdício…

Tantos inquietamentos próprios de um Sábado.

Os sentidos que temos de descobrir esperam por nós. Oxalá saibamos captar o sentimento que paira no ar, agora: um sentimento sabático.

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