Sobre a distância no ensino

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Referindo-se à Sociedade em geral e à Arte em particular, Francis Mulhern escrevia em 2018 que todo o olhar é banal, mas nenhum olhar é natural. As maneiras de ver precisariam de ser educadas e reeducadas, através de processos de comunicação e aprendizagem. Na verdade, os olhares “vulgares” deveriam ser educados a ver.

Já 70 anos antes, Simone Weil afirmava que ensinar deveria ter o único propósito de preparar, através do treino da atenção, para a possibilidade de agir. Todas as outras vantagens da instrução não possuiriam qualquer interesse.

Parece evidente que um olhar “vulgar”, face a uma pintura do século XX como a Guernica de Picasso, terá dificuldade em discernir e fruir a riqueza e complexidade emocional e estética da alegoria exposta na tela. A formação da atenção possibilitaria a compreensão da história da obra e das soluções formuladas pelo artista.

No campo do Desporto, há décadas que sabemos, através de resultados consistentes com recurso a sensores óticos, que designo genericamente por eye trackers, que os melhores atletas e treinadores olham e veem outras coisas relativamente aos seus pares menos experientes. A identificação e uso da informação relevante resulta da educação do olhar e da atenção ao longo de anos de inserção no meio, sendo incorporada como hábito e modo de agir. É importante reter que, se a aprendizagem começou por ser sensorial e cognitiva, acaba por implicar todo o corpo, como organismo vivo e atuante.

É também incontornável, como Vygotski mostrou claramente há cerca de um século, que toda a aprendizagem é social, acontece sempre na relação com outros e na reorganização constante daquilo que sabemos e fazemos e do modo como pensamos. Ora, para Hegel pensar é na verdade e essencialmente a negação do que está imediatamente à nossa frente, mas atualmente o modo de pensar dialético é estranho ao discurso e à prática.

Em tempos em que o pós-positivismo é a ideologia hegemónica na academia,

a alocação e distribuição do crédito em ciência depende do acesso a um complexo arranjo de instrumentos, dados, teorias e publicações, sugerindo que tudo se trata e resolve através de modelos e acesso a financiamento. Todavia, o foco deveria deslocar-se para os processos onde o conhecimento é gerado, estabelecido e, acima de tudo, disseminado. Como Latour demonstrou, a vida no laboratório é uma disputa social.

A avaliação das abordagens teóricas e das evidências empíricas deveria proporcionar a mestres e aprendizes o domínio de habilidades para formular questões, para pesquisar informação sobre a investigação existente e exprimir perspetivas críticas sobre a realidade. De outro modo, todos corremos o risco de resvalar para a complacência face às pressões externas e de lóbis comerciais, que proclamam infundadamente benefícios dos seus produtos e serviços.

Podemos entender o ensino como local de experiências de socialização e não causa de socialização, mas esta só irá ocorrer quando o olhar e a atenção forem socialmente educados para ver e entender o mundo.

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