Solidariedade Intergeracional, sim ou não?

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A luz do desconfinamento em tempo de pandemia traz-nos à reflexão as medidas aplicáveis a creches (dos 0 aos 3 anos) e a residências de pessoas mais velhas (designadas de idosos), de forma tímida e fruste, quiçá ajustada (adequada?).

Isolam-se os netos dos avós ficando longe e à distância de cada um, limita-se a liberdade de apreender, a criatividade em expansão e a noção de partilha como valor às crianças, restringem-se in extremis as visitas aos lares e casas de acolhimento da 3ª e 4ª idade com regras sub-humanas e a raiar a indignidade em direito da família.

A emergência sanitária e a defesa da vida sobrepõem-se, naturalmente, ao valor da proximidade de pessoas (mesmo sem bens e “superfícies”), aos laços afetivos na família que vão a caminho da saudade e da desesperança, às relações sociais que se interrompem abruptamente e minam a sociedade civil, à vida económica familiar, economia social e empresarial que perde rendimentos, reduz produtividade e aumenta desemprego.

A luz ao fundo do túnel retoma cautelosamente direitos, liberdades e garantias que dávamos por adquiridos, depois perdidos e agora “achados”, com impedimentos nem sempre compreensíveis.

As creches representam para as crianças um espaço de abertura ao conhecimento, ao desenvolvimento e à relação harmoniosa interpares e tutores, com a disciplina necessária para fruição dos direitos de todos e preservação da saúde física e mental.

Mas não podem ser casas em funcionamento ingerível por espartilhos e regras impossíveis de cumprir tipo militarização infantil, lugares de negação do afeto e sua perceção, meios de depósito de crianças e isolamento comunicacional do mundo que estão a querer conhecer.

Os lares e casas de acolhimento representam o direito ao cuidado em todas as fases da vida mesmo decrépitas, a criação de laços e novas motivações para a vida quando a vida se esvai, a função social em saúde e segurança sem perda das funções essenciais da família, limitada pela vida ativa, pressão laboral ou alterações da sua estrutura e dinâmica.

Mas não podem ser casas de fim de vida vendo um só filho por semana à janela, na rua e em horário laboral, uma vídeo chamada para alguns mais capazes e com recursos, o carinho que não se consegue transmitir e receber de filhos e netos, a perspetiva de guia de marcha para o cemitério também sem expressão do luto da família.

A solidariedade intergeracional está em pausa e em causa. Os decisores, os técnicos e os pedagogos têm de se respeitar e entender, de forma a que assumam a sua difícil função sem pesporrência e com humanidade, não transformando uma catástrofe sanitária, com a sua evolução esperada, em desestruturação de família em três gerações e da sociedade solidária e dos direitos humanos, nunca esperada.

A saúde é um bem, a família é um valor, a sociedade é um princípio, para todos. Só assim será poema, só assim será razão, só assim ficaremos todos bem.

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