“Take away” da pobreza escondida

Créditos: Olhares.com

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A crise provocada pela Covid-19 está a agravar dramaticamente a “muita fome e pobreza escondida” em Portugal, denunciadas, em Junho de 2019, pela presidente do Conselho Nacional da Sociedade de São Vicente de Paulo, Alda Couceiro. No final do ano passado, 17,2% dos portugueses estavam em risco de pobreza, segundo o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento. Actualmente, 10% das famílias portuguesas enfrentam risco de insegurança alimentar, como afirmou Joana Sousa, da Ordem dos Nutricionistas, num debate promovido pela Associação para a Cooperação e o Desenvolvimento (ACTUAR). Isabel Jonet, do Banco Alimentar contra a Fome, confirma o diagnóstico, ao garantir recentemente que “nunca viu nada assim”, destacando os quase 12 mil pedidos de ajuda de agregados familiares que recebeu, desde o início da actual pandemia. Na região Centro, a Cozinha Económica de Coimbra viu aumentar consideravelmente a procura pelo apoio alimentar que presta, desde 1933, ao ponto de, nas últimas semanas, ter recebido vários telefonemas de “gente a chorar” com vergonha de aparecer.


“Um homem, para comer, tem de vir aqui”

Na serenidade da manhã de 26 de Maio, pouco depois das 10 horas, já algumas pessoas deambulam na Travessa das Canivetas e na Rua do Poço, à espera do saco de plástico com o respectivo almoço. Assim sucede nesta época de muitos cuidados e do obrigatório distanciamento físico por causa da pandémica Covid-19. Estamos no coração da Baixa de Coimbra, agora ainda mais despovoada e mortiça. Apenas o curto vaivém de alguns cidadãos cabisbaixos e o andar sorrateiro parecem animar a manhã, nas vidas tristes e desfavorecidas destes andarilhos em estado de necessidade.

O primeiro que decido interpelar é um homem magro mas robusto, calçando uma luva preta na mão direita, a que faltam alguns dedos. Diz ter sido polícia, segurança e até “secretário-geral da Administração Interna”. “Está tudo aqui!”, garante, apontando para uma bolsa que traz na cintura e onde, supostamente, estarão documentos ou cartões que poderão comprovar o que afirma. “Agora, não sou nada. Sou reformado”, expressa, lamentando a situação de invalidez por acidente.

“Ganho pouco, trezentos euros. Um homem, para comer, tem de vir aqui”, justifica-se, gesticulando no sentido do edifício da Cozinha Económica de Coimbra, onde daí a pouco haverá de recolher a primeira refeição do dia. “E aqui — sublinha — não pago, porque a Segurança Social passa-me a carta…”

É um entre muitos, sozinho na multidão dos pobres, novos e de longa duração, que procuram a ajuda possível, a solidariedade estendida por instituições várias, quando faltam e falham os laços familiares. É o seu caso, desligado da família há vários anos. “Tenho, mas não me interessa”, responde, de forma lacónica e mecânica, como quem acende um fósforo.

De segunda a sexta-feira, os dias repetem-se na espera do almoço e do jantar, na fila para a Cozinha Económica. “É o que me vale. Se não houver isto, eu vou fazer o quê? Morrer de fome?”, interroga-me, notando não poder prescindir das duas refeições diárias que lhe são distribuídas a partir do meio-dia e por volta das seis da tarde. “Antes, era às seis e meia. Agora, é um bocadinho mais cedo!”, explica, esforçando-se no argumento: “A fila chega ali, àquele largo!” Por isso, pergunto se se junta muita gente em cada refeição: “O quê? Cem pessoas?” “Ah, é melhor você pôr muito mais nisso. Agora vêem-se mais porque há por aí muitos desempregados. Então brasileiros…Vê-se por aí carradas de gente. E a vir para a fila também”, acentua esta voz anónima, que reclama: “Isto não é vida. Eu já batalhei tudo e só ganho trezentos euros. E a comida que dão aqui é pouca, para mim — é como um pisco estar a comer!”


“O que vier no kit é o que a gente come”

Questiono-o: “Não lhe dão mais?” “Claro que não! Antes, quando comia lá dentro, eu pedia sempre mais uma sopa. Pedia sempre mais um bocadinho… Agora, já não temos hipótese disso”, replica, notando: “O que vier no kit é o que a gente come. E ninguém come lá dentro. O que é pena. Assim, eu passo fome.”

E prossegue: “É mesmo verdade! Acha que a comida que eles me dão sustenta isto? [Referindo-se ao seu corpo ainda musculado] Esquecem-se que um homem está desde manhã sem comer… Eu sou pobre! Aonde é que vou tomar o pequeno-almoço?”

O saco de plástico ou a embalagem a que os anglófonos designam “kit” conterá tudo o que é necessário para uma refeição equilibrada. Porém, nem sempre será suficiente: “Dão-me uma sopa. Mesmo assim, às vezes vem meia… Aquela tigelinha  meia, já viu? E um pratito pequenino, com comida.” Quanto à qualidade dos alimentos, este utente admite que não se pode queixar. O menu é, para si, uma surpresa: “Normalmente, quando isto estava aberto, a gente via a ementa. É carne ao almoço; peixe ao jantar. Sobremesa… Às vezes, dão uns doces, e fruta… É quando há!”

Confessando não ter amigos, este lisboeta radicado em Coimbra há 17 anos explana: “Toda a gente me conhece! Eu sou o único comando que anda por aqui, assim… Há um outro, de bicicleta, que é o Chaimite! [Relembrando o veículo militar ligeiro usado na guerra colonial portuguesa]”

Ligeiramente mais velho, um homem tímido permite-me uma breve conversa. Natural da localidade de Marmeleira, na União de Freguesias de Souselas e Botão, trabalhou na construção civil e emigrou para a Alemanha. “Depositei o dinheiro… e sacaram-me a massa toda!”, alega este utente da Cozinha Económica de Coimbra, também reformado por invalidez.

É outro frequentador diário da Cozinha Económica de Coimbra, onde não paga as duas refeições que transporta num saco verde. Se não fosse a ACERSI (Associação das Cozinhas Económicas Rainha Santa Isabel), “tinha de ir ao restaurante”. Mesmo com pouco dinheiro, ele teria de o fazer “esticar”.

Entre os mais novos e os mais velhos – “Alguns mais velhos do que eu”, como repara –, não encontra ali amigos: “Só conhecidos. Não tenho amigos.” E não se queixa da quantidade da comida que lhe é fornecida. Continuará a procurar a Cozinha Económica? “Claro, que remédio”, manifesta de forma decisiva.


Mais de 800 refeições por dia

Confrontada com o crescente número dos que, por necessidade alimentar, acedem à porta de entrada da instituição que dirige, Ana Cristóvão informa que, na primeira semana de Maio, estavam encaminhadas 612 pessoas e que eram distribuídas mais de oito centenas de refeições diárias.

“As filas são, de facto, impressionantes. Nós, de repente, fomos surpreendidos por esta pandemia, procurámos tomar medidas e a casa foi toda reestruturada, quer a nível físico quer de trabalho”, expõe a directora técnica da ACERSI, elucidando: “Começámos pelas medidas de higiene. Foi a primeira coisa que a Direcção-Geral da Saúde pôs cá para fora, com a obrigatoriedade de lavar as mãos e de desinfectar o refeitório. Criámos o distanciamento que nos permitia ter uma pessoa por mesa. Articulámos com uma delegada de saúde, que nos foi propondo as medidas; e ainda lhe perguntámos sobre outras que achasse serem correctas.”

“Temos, aqui, famílias em que o pai e a mãe trabalhavam em cafés que, entretanto, fecharam. Assim, deixaram de receber e a não poderem pagar a água, a luz e outros encargos que, em alguns casos, ainda se refaziam das crises anteriores.”

Depois de uma semana com um utente por mesa e com 21 pessoas simultaneamente no refeitório, acautelando o distanciamento social, a instituição passou a experimentar o regime de “take away”. “Deve-se imaginar que 21 pessoas de cada vez no refeitório obrigava-as a estarem, durante horas, na fila. E as pessoas não desistiam! Há, realmente, uma necessidade de alimentação muito grande, porque não têm quaisquer recursos. Temos, aqui, famílias que não têm, absolutamente, nada!”, realça Ana Cristóvão.

Como verifica a directora técnica desta IPSS de Coimbra, “os que esperavam pelo rendimento do seu trabalho, para pagarem as contas, viram rapidamente fugir-lhes o tapete”. Sobretudo, as mulheres-a-dias, que executavam serviços domésticos e que recebiam por dias ou horas de trabalho, e os empregados de café e da restauração. “Temos, aqui, famílias em que o pai e a mãe trabalhavam em cafés que, entretanto, fecharam. Assim, deixaram de receber e a não poderem pagar a água, a luz e outros encargos que, em alguns casos, ainda se refaziam das crises anteriores”, constata a assistente social, que integra esta organização solidária há 36 anos. Ana Cristóvão alude ainda a “uma nova geração que opta por não trabalhar por conta de outrem” e que, apesar do enquadramento familiar que atenua as respectivas dificuldades e as dissimula socialmente, também já carece dos apoios institucionais.


O pudor de quem necessita

Esta responsável informa que, no actual período atípico, tem recebido “telefonemas de pessoas a chorar” e que “não conseguem aparecer”, porque sentem vergonha. “Temos, neste momento, muita gente que nunca tinha recorrido a nenhum apoio. Porém, quando as pessoas estão estruturadas, estas são crises agudas. Depois, arregaçam mangas! Veremos como decorrem as próximas semanas. Cá estaremos!”, declara.

Entre 15 de Março e o início de Maio, foram registados 186 novos casos de cidadãos com carências alimentares. Com os sucessivos estados de emergência e o posterior período de calamidade, considerando os cenários de confinamento social, “houve a necessidade de reestruturar completamente esta casa”, insiste Ana Cristóvão, referindo que os utentes do centro de dia, “por imposições e por normativas da Segurança Social”, permaneceram todos no próprio domicílio.

Créditos: Paulo Anjos

Deparando-se com diversas situações, a exemplo dos idosos com mobilidade reduzida – próximos da Cozinha Económica, na envelhecida malha urbana da Baixa coimbrã – que vivem sozinhos em quartos arrendados, e que deixaram de contar com o auxílio dos movimentos de voluntários que lhes asseguravam a alimentação e as compras, entre outras formas de acompanhamento, a ACERSI tem um trabalho acrescido. Para isso, precisa da disponibilidade de todos aqueles que, voluntariamente, queiram colaborar com a instituição.

“Passámos a entregar refeições a pessoas que, comprovadamente, não podem sair de casa, porque se movem com dificuldade ou porque a análise [da nova variante do coronavírus 2019: SARS-CoV-2] tinha sido positiva”, informa Ana Cristóvão, esclarecendo: “Tínhamos 20 pessoas em apoio domiciliário e 35 em centro de dia. De repente, temos de fazer 61 apoios em casa. E isto só se consegue com uma equipa que vista a camisola!”

“No âmbito da saúde mental, colocam-se problemas terríveis! E é preciso agarrar na receita que o utente traz, muitas vezes, directamente do psiquiatra e ir comprar os medicamentos. Para fazer a divisão e vigiar as tomas, há três voluntárias que, semanalmente, colaboram nesta área: duas enfermeiras e uma farmacêutica”, adianta a directora técnica, para quem é indispensável a articulação entre diferentes entidades e serviços, perante as múltiplas situações de exclusão social, de dependência e de incapacidade.

“Não tolero a ideia de que quem não sabe, desde que nasce até que morre, o que é ter o conforto de uma cama ou poder fechar uma porta, ainda seja posto em causa quanto às suas carências.”

“Eu não posso aceitar, nem pôr em dúvida, que uma pessoa que vive do rendimento social de inserção [prestação incluída no subsistema de solidariedade e num programa de inserção], pague a quase totalidade por um quarto e ainda seja questionado pela assistente social: – Em que é que gastou os cinco euros?”, adverte Ana Cristóvão, sublinhando: “São pessoas com resiliência e uma capacidade de sobrevivência muito grande. Mas não tolero a ideia de que quem não sabe, desde que nasce até que morre, o que é ter o conforto de uma cama ou poder fechar uma porta, ainda seja posto em causa quanto às suas carências.”


Cuidar das fragilidades sociais

“A missão desta casa é apoiar quem tiver carência económica e carência alimentar”, observa Ana Maria Cristóvão, a directora técnica da instituição conimbricense que, desde 1933, vem lidando com as fragilidades daqueles que, por diversas razões pessoais, laborais e sociais, não têm uma vida normal. Sobretudo, porque é difícil viver sem pão.

A maioria dos que ali acorrem é encaminhada pelos serviços de atendimento local da Segurança Social ou através das estruturas de Emergência Social. “Essas pessoas chegam com a sua situação sinalizada”, diz a directora técnica da ACERSI, instalada num antigo edifício da Baixa coimbrã. Tratando-se de uma “instituição canonicamente directa”, sob orientação da Igreja Católica, “é uma casa aberta a toda a gente que dela necessite”, incluindo os muçulmanos, os hindus e os que professam outras confissões religiosas. “Temo-los aí, com a imigração, como é evidente”, afirma Ana Cristóvão.

A um preço módico para os sócios que, eventualmente, ali procurem uma refeição – cerca de quinhentos, com uma quota mínima anual de doze euros –, a Cozinha Económica segue os modelos de relacionamento das IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social) com o Estado, através da celebração de acordos de cooperação (principalmente, com a Segurança Social), e conta ainda com os apoios do sector privado e empresarial, além dos contributos autárquicos.


O perfil dos que têm muito pouco

Ao reconhecer a importância estratégica desta estrutura social e solidária, Ana Cristóvão assegura que o perfil dos seus utentes “é o das pessoas que têm muito pouco”, porque “estão em situação de pobreza ou de grande risco de pobreza”. Quando há alguma “crise regional ou nacional — acrescenta — são elas as que mais se ressentem. E nós notamos isso, imediatamente”, sublinha a mesma responsável, com formação superior na área da assistência social.

“Por causa da pandemia, libertaram alguns reclusos. E, na segunda-feira seguinte, já vários deles nos diziam ter só a roupa que traziam vestida”, salienta a nossa entrevistada, acrescentando: “Vieram para a rua… Provavelmente, terá havido da parte dos estabelecimentos prisionais os critérios e os estudos dessas situações. Mas não deixaram de aparecer aqui indivíduos que não tinham qualquer enquadramento familiar nem social que lhes permitisse, por exemplo, arrendar um quarto.”

“O problema da pobreza é o de ser apercebida como uma obrigação. E, nesta condição, não há como optar. São as pessoas que estão na pobreza, sem volta a dar porque nada têm, que me preocupam.”

Para Ana Cristóvão, as necessidades de apoio fazem-se sentir mesmo naqueles que, com frequência universitária ou uma licenciatura, antecipavam outros percursos de vida. “Houve tempos em que alguns bens eram sinónimo de desafogo. Neste momento, não. De maneira nenhuma”, sublinha a directora técnica da ACERSI, criticando: “Os bens parecem estar ao dispor de todos. As crianças são educadas com toda a motivação para terem isto e aquilo… Mas, o que nos preocupa e faz trabalhar em apoio destas pessoas prende-se com as opções nas suas prioridades. E que opções são? Para alguém com uma estrutura familiar cujo rendimento mensal lhe permite alguma estabilidade — acrescenta —, não será difícil optar por dispensar, por exemplo, alguns bens de consumo. Enquanto opção, restringir será muito engraçado. O problema da pobreza é o de ser apercebida como uma obrigação. E, nesta condição, não há como optar. São as pessoas que estão na pobreza, sem volta a dar porque nada têm, que me preocupam. Como é que nos colocamos perante elas, quando nem podem escolher a sua roupa e vão ter de levar aqueles sapatos, só porque correspondem ao único par disponível com o número 44?”

“Quando se trata de jovens é, exactamente, a mesma coisa”, sustenta Ana Cristóvão, exemplificando: “Eles não podem decidir se querem calçar umas sapatilhas de cano mais alto ou usar uma camisola mais dread, porque não há, na pobreza, possibilidade de escolha. E isto é muito duro.”

Privilegiando os que não têm alimentos, com o refeitório social, os dirigentes da ACERSI procuram também colaborar em rede noutras actividades, além do centro de dia e do apoio domiciliário. “Porque achamos que já há imenso para fazer, queremos que cada serviço seja maximamente organizado e que possa ser eficaz. É para isso que trabalhamos na área social”, especifica a responsável técnica, salientando que aparecem “cada vez mais jovens que não têm nada”. Por isso, também eles se juntam às filas com gente de diferentes idades e origens que, duas vezes por dia, se prolongam entre a Rua das Rãs e o Terreiro do Mendonça.


Presidente da República elogia trabalho desenvolvido

“Trabalhamos para uma população que tem pouco ou quase nada. E é a nossa obrigação dar-lhes uma resposta digna. Essa é a linha de orientação desta casa”, reforça a directora técnica da ACERSI, recentemente surpreendida com um convite da Presidência da República, através da assessora para os assuntos sociais (a ex-jornalista Maria João Ruela), para uma reunião, na tarde de 18 de Maio, com Marcelo Rebelo de Sousa. Ana Maria Cristóvão e a assistente social Lúcia Duarte ouviram, do próprio Presidente da República, palavras de gratidão pelo “trabalho social que é desenvolvido há tantos anos” por esta instituição de Coimbra.

Créditos: D. R. Presidência da República

“Sim, mostrou o reconhecimento por todos os anos de trabalho junto dos que têm muito pouco ou que nada têm. Para nós, é muito honroso. É mais uma prova do que fazemos nesta casa. Uma casa que põe ao dispor dos seus utentes aquilo que tem!”, considera a directora técnica da Cozinha Económica, comentando: “O maior reconhecimento é que as pessoas mostram confiança quando partilham as suas coisas. Há dias, veio um senhor com uma caixa de nabiças muito fresquinhas, muito bonitas, que ele tinha trazido da sua horta. Isto representa o esforço de alguém que semeou, que viu crescer esses legumes e que, quase anonimamente, os oferece a quem mais precisa.”


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