T´arrenego, borrachola!

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Há muitos anos, na minha aldeia, um doidivanas mais as suas taponices envinagravam a mãe apesar de, na manhã do baptizado, ela ter deitado o berrincha no altar-mor onde, anos depois, passaria a fralda da camisa. Solenes e discretos procedimentos que o povo tinha como convenientes para a divina providência, que nunca dorme, escorraçar os desatinos humanos. Lavada em lágrimas, desabafou a mulher enfrenisada:

– Ai filho, mal tu sabes quanto me custou trazer-te nove meses no ventre.

Ele, na caseta do quintal a aliviar os intestinos, ouviu o desabafo e não se conteve que não dissesse:

– Meta-se aqui no meu cu que andará para sempre.

Doutra vez, ao ver no passal o senhor padre a colher laranjas com a sotaina desapertada, gritou-lhe:

– Tape isso depressa; ainda lhe vêem a pachacha.

O desmiolado cresceu, botou corpo, algibeirou magros proventos nas jeiras dos montes serrilhados. Até que, num bailarico havido nos baixos da casa de Serafim Bezunga, se deixou enrabiçar por formosa trigueirinha. Pouco adentava. No mourejar refugiava-se na mudez. Falas, quem as requeria muito tinha de penar para escutar leve exclamação. Incontido, há que rondar a casa de Rosinha, a trigueirinha que vivia com a avó, afamada rezadeira. O fito era pedir-lhe a mão e o resto do corpinho, para o que ia magicando na melhor maneira de dar a volta à cabeça da velha.

Ora, tanto se insinuou, tanto o seu olhar menineiro mereceu comiseração que em noite de céu estrelado o cravelho da porta foi solto para lhe escancarar os serões ao morninho da lareira – olarila! A avó da rapariga atiçava as brasas para a cafeteira de alumínio da cevada, a servir pelo coador de saco. Depois, sobre as grades de ferro punha a torrar bordas de pão centeio que besuntava de azeite. E, como de costume, sob o dossel das alheiras e chouriças do fumeiro, o tartamudear do terço, dos cinco pai-nossos, das cinquenta e três avé-Marias, das cinco glórias e de uma salvé-Rainha. Ao que ele, mais para cativar a rezadeira do que rojado aos ditames da crença, começou por lhe fazer companhia nas orações.

Pantomineiro.

– Teve adianto? – perguntam os leitores.

– Caiu-lhe nas graças. Não demoraria um credo o consentimento dádiva do céu. Bom rapaz, apesar de um pouco desaparafusado; verdade seja dita e redita, um mouro de trabalho, sempre, mas é que sempre vergado para os regos da terra, a sachar, a sachar. Nem tasco nem tabaco, propagandeou a mãe e as comadres de apresuntadas partes nadegueiras. Todas elas finórias e ronhosas, muito instruídas em fossar imposturices.

Numa manhã de alegranças o dar o nó. Trinam os sinos, viva os noivos!, cortejo alegre e endomingado a caminho da Matriz. Povoléu a postigar, a cochichar, tremoços para a ganapada e boda com vitela assada e vinhaça a rodos. Tarde de danças e contradanças e… lua-de-mel de viris folganças – pois quer não!

Não tinha passado um Inverno e já o pançudo se amantizava com carraspanas de alto lá com elas. A cambalear, como se desancado a pau de marmeleiro, lá conseguia atinar com o caminho da casa amparado aos muros dos quelhos que os aspergia de espumosa urina. Repetia que duas coisas não podiam ser interrompidas: urinar e ejacular. Raio de lorpa, cioso de atazanar a velha rezadeira, cada vez mais arrependida de ter caído no logro. Quando o embebedanço mais lhe subia ao toutiço, depois de – catrapumba! – se estatelar no tasco perante a caçoada geral, o retorno ao lar, doce lar ficava a cargo do reboque da rufiagem da sua espécie, entretida à calhoada, ou não fervesse por ali mosto rixoso.

– De minha casa para a taberna, o caminho não ganha erva – sentenciava, em jeito de provocação. Arrotava forte e feio e caía sobre o folhelho da cama dormindo que nem uma pedra, posto jamais constar que os pesos megalíticos sofram de insónias.

Bulidiça, a avó de Rosinha, a formosa trigueirinha foi-se a encomendar defumadouros e o sacrifício de galos pretos à benta do monte, benta penteadeira, pois onde está o mal está a mezinha. Levou-lhe camisas, cuecas e ceroulas do terolero e trouxe a cisma de alguém lhe ter deitado quebranto. Azeviche, avenca, arruda e alecrim com terra do adro, eis o que passou a rodear o lorpeirão.

                                   Deus te desinveje

                                   quem t´invejou

                                   Deus te desacanhe

                                   quem t´acanhou.

Metida em plangentes, quando a caixa da Sagrada Família lhe calhou em casa, às primeiras horas do breu nocturno a velha permaneceu rojada aos pés da cómoda, as vistas fitando a rodela de cortiça com a estrelinha do pavio a bruxulear no copo de azeite e água. A murmuradeira:

Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte.

Seria mau-olhado? – voltam os leitores a perguntar.

                                 De mau azar,

                                 de mal de inveja,

                                 de mal de bruxaria,

                                 de mal de feitiçaria,

                                 Aleluia! Aleluia! Aleluia!

                                 Credo! Credo! Credo!

                                 Pai Nosso. Avé Maria.

Pois sim! De cigarro entalado no canto da boca, continuava, o bardino, a divinizar a chiadeira do batoque enfiado no umbigo das pipas. Em desesperação, bradava a rezadeira por vindicta, prometia ao Altíssimo um dia escaqueirar aquele bruta-montes em hora do diabo botado ao mundo; quer-se dizer, nunca deveria ter sido parido.

– T´arrenego, borrachola!

À coca, toca o visado de soltar alarve risoteira:

– Ah, parideira, parideira, quanto mais beata mais coirata!

Orolhe:

                               Em cima de ti me ponho

                               em cima de ti me ajeito.

                               Enquanto não o meto todo

                               não fico satisfeito.

– Ordinário. Ainda p´ra mais ordinário. O que nos havia de entrar em casa, santo Deus. Ai, Rosa, minha neta, não sei o que viste nisto.

Ao que ele, esgrouvinhado e de braguilha aberta:

– Só pensa em cuchinices, mulher. Quer a chave da adivinha? Aí vai: É o pé e o sapato.

Assanhadiça, num acto de repentina religiosidade, a avó de Rosinha, a formosa trigueirinha, bramiu então as contas do rosário outrora desfilando por entre os dedos do genro, na aflitiva, na derradeira esperança de regenerar a inclinação para as cardinas.

– Arrepende-te, desagradecido!

Sucedeu o seguinte: Mal vislumbrou as contas pretas benzidas no santuário de Nossa Senhora de Fátima, o focenhudo arregalou os olhos e lançou tal berraria que havia de atordoar a vizinhança e os animais de lavoura e de companhia:

– Atire para lá as cagalhetas, sua vaca.        

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