Teletrabalho versus humanização

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A descoberta e promoção do teletrabalho levanta questões que não são de lana caprina, não podendo ser apresentado como a descoberta da pólvora no século XXI.

O conceito de teletrabalho implica a ausência física da sede do local de trabalho e retorno ao lar que não é doce lar (ou ao centro comercial, cabeleireira ou manicure).

Implica ainda contactos telefónicos laborais (com acesso a meios digitais nem sempre disponíveis, sem acesso a documentação materializada e com videochamadas via plataformas de duvidoso conforto mental para os interpelados).

Há virtudes no teletrabalho para alguns ramos de actividade que envolvem tecnologias digitais, com aproveitamento dos recursos informáticos, programas, aplicações, comunicação a baixo ou nulo custo.

A 5G e sucessórias vão determinar cada vez mais a facilidade e a rapidez de execução, não sem perigar a privacidade e a protecção de dados (embora haja piratas informáticos louvados por políticos e ressabiados).

No quadro da função pública, 17 mil trabalhadores ficariam desde já em teletrabalho, prevendo-se atingir 25% do total dos trabalhadores na legislatura (quais robots telecomandados).

Haverá melhoria no impacto ambiental, na eliminação (?!) das horas de ponta, na poluição sonora (também gutural), nos gases de combustão e no regresso à Idade Média sem pecado(s).

Mas também há riscos em boa parte da prestação de serviços, públicos e privados, no domicílio, em que a impessoalidade impera e provoca frustrações no cliente ou consumidor de bens (para já não falar do direito à reclamação materializada e universal).

A produtividade é duvidosa face aos constantes apelos para a atenção familiar, com a gestão das brincadeiras das crianças (e as creches, infantários e jardins de infância, com os seus postos de trabalho, não estão sempre abertos).

A qualidade do trabalho é restringida pelas (frágeis) condições de desempenho (entre as quais, crianças a saltar, a sopa a fumegar, os animais de estimação de vida sã a ronronar ou ladrar).

O teletrabalho poderá até ser mais cómodo para muitos portugueses (até à saturação…), com base nas tecnologias e no endeusamento do estilo de vida no norte da Europa (cujos níveis de felicidade ainda assim estão muito longe do Butão…).

Mas permitirá a vida pessoal e familiar simultânea com a vida profissional (em conciliação ou em discussão permanente?).

O que é certo, é que a humanização dos serviços e o conceito de cliente / utente, tecla com que têm martelado funcionários públicos e agentes de serviços, comércio e indústria, fica severamente prejudicada na relação trabalhador-utente com a ausência física do prestador de serviço.

O funcionário / trabalhador passa a ser uma figura impessoal, que não tem uma palavra amiga sem dissimulação, que pensa no cônjuge, nos filhos e nas dívidas ao banco, enquanto “atende” não presencialmente o cidadão, que fixa o écran do computador e não a pessoa, que transmite aborrecimento e não afecto.

E já agora, onde fica a ideia de levar a relação médico-doente a património imaterial da Humanidade pela UNESCO, apoiada pelo Governo do Partido Socialista, em que era ministro Adalberto Campos Fernandes?

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