Tempos duros

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Mário Vargas Llosa é uma personalidade complexa. Nele coexistem a personalidade política que começou por ser apoiante da revolução cubana para, posteriormente, evoluir para posições inequivocamente de direita, defendendo as soluções neoliberais, política com que se apresentou quando foi candidato presidencial do Perú, que veio a perder para Alberto Fujimori. Nas últimas eleições presidenciais foi apoiante da candidatura da direita, protagonizada por Keiko Fujimori. Mas sem nunca ter deixado de intervir politicamente nos assuntos do seu país, e nos de Espanha a propósito do movimento independentista da Catalunha, colocando-se ao lado dos nacionalistas, Vargas Llosa é sobretudo conhecido por ser um romancista de méritos reconhecidos, prémio Nobel da literatura, desde que publicou Los Jefes até ao recente Tempos Duros (2019) publicado pela Quetzal, já este ano. 

No entanto, a obra que marca a notoriedade literária de Vargas Llosa é, sem dúvida, Conversaciones en la catedral, que relata a situação política vivida no Perú nos finais dos anos 40. Este relato é feito por quatro amigos que se encontram regularmente num bar chamado La Catedral, à mistura com episódios das suas vidas pessoais, que numas ocasiões se embrincam e noutras se tornam conflituosas. Mas a grande novidade que Vargas Lhosa introduz é a técnica da polifonia comunicacional das personagens e à sobreposição de planos narrativos, que obriga o leitor a um considerável esforço de atenção de leitura.

Em Tiempos recios (Tempos duros), lançado em 2019, Vargas Lhosa retoma a problemática política, agora centrada na Guatemala, mas também na República Dominicana, as quais ficaram conhecidas para a posteridade como “repúblicas das bananas”. No tempo em que decorre a acção, anos 50, a Guatemala era de tal forma insignificante e estava tão dependente dos EUA, que o autor escolheu para epígrafe da obra uma frase de Churchill “I’d never heard of this Bloody place Guatemala until was in my seventy-ninth year”. 

O contexto político de Tiempos recios é o período que se segue à queda do presidente Arbenz e das consequências do domínio das explorações de banana pela United Fruit Co. Refira-se que foi durante o mandato de Arbenz que Che Guevara participa nas movimentações populares que tinham em vista introduzir profundas reformas no sistema produtivo e social da Guatemala, e onde ele faz parte da aprendizagem política que o levou a abraçar os ideais comunistas nas causas onde participou mais tarde, a começar por Cuba.

Vale a pena fazermos uma referência ao que representou a United Fruit, a multinacional norte-americana que serviu durante várias décadas de instrumento de exploração e dominação política por parte dos EUA de vários países da América Central, entre os quais, Colômbia, Guatemala, República Dominica, Costa Rica e Cuba. Implantada naquela região desde o início do século XX, começou por criar a exploração de bananas na Costa Rica e daí expandir-se para outros países. A sua influência política e económica nas que ficaram conhecidas por “repúblicas das bananas” era conhecida por derrubar governos através do financiamento de golpes de estado, de maneira a manter os privilégios fiscais que lhe eram concedidos por esses países. Em Cuba, os seus interesses estendiam-se à exploração da cana do açúcar, tendo sido expulsos em 1959 na sequência da revolução e os seus bens nacionalizados no ano seguinte. Na Colômbia, em 1928, na sequência dos protestos dos trabalhadores, a companhia ordenou às autoridades locais a repressão desses protestos, tendo-se verificado várias dezenas de mortos naquilo que ficou conhecido como Massacre das Bananeiras. Em 1969 a United Fruit foi comprada pela Zapata Corporation, empresa a que George W. Bush estava associado, tendo vindo a designar-se por Chiquita Brands, nome com que até hoje é conhecida. Tendo mudado de responsável e de nome, a herdeira da United Fruit não mudou, contudo, de métodos, e no início do século XXI envolveu-se no financiamento de grupos paramilitares na Colômbia, responsáveis pelo massacre de sindicalistas e camponeses, e a prisão de membros das FARC. Em 1941, o escritor costa-riquenho Carlos Luís Fallas escreveu a novela Mamita Yunai, nome por que era conhecida a United Fruit entre as populações locais, em que denuncia o tratamento que os capatazes da companhia davam aos trabalhadores que morriam em trabalho, sendo enterrados na plantação onde trabalhavam para servir de adubo às bananeiras. Também Pablo Neruda se inspirou nela para escrever o poema “La United Fruit Co.” incluído no livro Canto General e Garcia Marquez, em Cem anos de solidão, não deixa de se referir às práticas da companhia, enquanto exemplo de negação dos direitos sindicais e do clientelismo político.

Tiempos récios narra o período politicamente tumultuoso vivido na Guatemala, entre 1954 e 1957, após o derrube do presidente Arbenz pelo partido conservador Movimento de Libertação Nacional, dirigido por Carlos Castillo Armas, com o apoio do governo norte americano, em virtude da política seguida por Arbenz de expropriação das grandes propriedades da United Fruit, seguida de indemnização com juros de longo prazo. Esta expropriação foi particularmente conflituosa já que Allen Dulles, director da CIA, era advogado da companhia e muitos funcionários governamentais tinham interesses directos na companhia.

A par da descrição da relação de Castillo Armas com uma amante, Vargas Lhosa narra sobretudo os acontecimentos políticos que se vão sucedendo nesse período, sobretudo a reversão de toda a política seguida por Arbenz no que respeita à reforma agrária. Autor da criação do Comité Nacional de Defesa contra o Comunismo, esta organização investigou dezenas de milhares de guatemaltecos por suspeita de simpatia com o ideal comunista, acabando por ser assassinado por um guarda presidencial.

Estava-se no que ficou conhecida por Guerra Fria, e embora o Movimento 26 de Julho de Fidel Castro ainda estivesse longe de descer da Sierra Maestra para entrar triunfante em Havana, certo é que também na Guatemala a caça às bruxas, pela mão de Castillo Armas, não dava tréguas a quem se lhe opusesse. Encontrou como aliado e apoiante Rafael Trujillo, presidente da República Dominicana e um dos mais ferozes ditadores da América Central. O seu apoio a Castillo Armas devia-se principalmente a razões ideológicas, com a perseguição impiedosa aos seus opositores, sobretudo se fossem comunistas.

Tiempos récios é, por estas razões, uma descrição política daquela região, nos meados dos anos cinquenta do século XX, em que os ditadores se sucediam à medida dos interesses económicos dos governos norte americanos. Foi a era da política da canhoneira, da corrupção extrema, das conspirações e da repressão e assassinato dos opositores. Que só terminou com a queda das ditaduras chilena, brasileira e argentina, e a inauguração de um período em que as liberdades foram restabelecidas e os governos passaram a ser democraticamente representativo da vontade dos respectivos povos.

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