Terra de esperança e sonhos

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Era difícil não voltar a falar dos E.U.A. Sendo americanista (e, quando digo “América”, refiro-me ao que resulta da construção mítica do termo) e mesmo receando que me acusem de deformação profissional, não posso deixar de escrever sobre o que aconteceu recentemente naquele país.

Não vou falar das razões que ainda levaram tantos milhões de americanos a votar Trump, nem da aberração que aquela tomada do Capitólio significou. Todas e todos os analistas e todas e todos os comentadores trataram os temas à exaustão, sendo que as razões quase sempre apontadas para a situação nem sequer são novas.

Lembro-me de chegar aos E.U.A. em plena e desenfreada era neoliberal Reagan e do choque que senti perante a desigualdade social, o desemprego, a pobreza extrema (os sem-abrigo arrastavam-se já pelo campus em números inimagináveis) e ver, com horror, porta-chaves com KKK a saírem do bolso de trás de várias jeans. Sem querer comparar as circunstâncias históricas, é como costuma dizer um amigo activista galego quando fala de activismo e da sua infância franquista: “A história paga-se!”. E o fracasso histórico das promessas do sonho americano para a maioria da população americana paga-se pelos vistos, cada vez mais, nas ruas.

Mas também isso não é novo, bastando pensar na violência que uma permanente guerrilha urbana — embora quase nunca reconhecida como tal — significa, num país onde se vai comprar armas ao supermercado e onde o número de mortos daí resultante é diário, mesmo em pequenas cidades.

O espantoso é poder constatar como a ideologia americana é tão mais forte e como continuamos a ouvir a afirmação da fé na esperança e no sonho — pois não foi isso que aconteceu naquela cerimónia de tomada de posse de Joe Biden?

É disso que quero falar. Porque, espantosamente também, vemos analistas e comentadores/as que não são americanos, os portugueses incluídos/as, a embarcar no mesmo tipo de discurso ideológico ingénuo. Recordei, nos últimos dias, o grande americanista do King’s College de Londres, o também poeta Eric Mottram, um socialista convicto, que, comentando o 25 de Abril e a análise do mesmo pela ideologia americana, me dizia: “Americans will never get it! They will simply never get it, Graça!”.

Isto para dizer que, ainda que extraordinário, me parece natural que o povo americano continue a acreditar de forma cega na capacidade infinitamente regenerada e regeneradora da esperança e do sonho de uma nação que parece só ter futuro. Passa-se, assim, ao lado dos fracassos do passado e do presente, e dos erros inevitáveis que, afirma o calvinismo mais resistente em que aquela nação assenta, só existem para que se aprenda o caminho verdadeiro para a felicidade e a perfeição naquela que terá de se cumprir como a maior democracia do mundo, assente nos valores da liberdade, da fraternidade e da igualdade — pois liderar o mundo é seu destino manifesto.

Ouvir e ver análises e comentários dos/as que não são americanos a seguirem a mesma linha de pensamento é que me deixa perplexa. Se o que tem acontecido nos E.U.A. acontecesse aqui, em Portugal, será que ouviríamos as mesmas loas àquela cerimónia? Ou será que o cinismo e o cepticismo seriam a nota dominante?



A ingenuidade daquele poema da jovem poeta Amanda Gorman — ainda que digna representante da corrente “Spoken Word” afro-americana na mestria do som e da performance — é quase patética na sua firme crença em todos os que são os grandes tropos americanos. A começar pelo título do seu poema, “The Hill We Climb”, de imediato a remeter-nos para a metáfora bíblica “The City Upon a Hill” com que John Winthrop designou a América, ainda no Arbella, um dos barcos dos primeiros colonos, os Pilgrim Fathers. Como se a terra a que almejavam fosse a nova Jerusalém e como se eles, os puritanos que nela se refugiavam da turbulência política e, sobretudo, económica inglesa, fossem um povo eleito.

Como é possível valorizar a celebração de todos aqueles valores naquela tomada de posse quando ela é feita atrás de vidros anti-bala e com a presença massiva de um exército ao redor? À noite, começar o concerto comemorativo com Bruce Springsteen a cantar “The Land of Hope and Dreams” foi a cereja em cima do bolo.

Não chega ter esperança e acreditar no sonho se a organização económica e social permanecer a mesma, se a desigualdade racial e na distribuição de renda se mantiver, se as grandes corporações americanas e as mafias continuarem a dominar o sistema financeiro (americano e mundial) com muitos e muitos Trumps em posições de poder. Não o conseguiu alterar Kennedy, nem Obama, nem acredito que o consiga Biden.

E, contudo — agora, eu também, numa atitude contraditória e patética — como seria bom poder acreditar que aquela ingenuidade americana, aquela crença na capacidade de acção individual, aquela crença no poder da cidadania e aquela maleabilidade do sistema pudessem um dia transformar aquela terra de esperança e de sonhos no que o seu grande bardo, Walt Whitman, cantou como sendo, em si mesma, na imaginação da sua unidade entre a parte e o todo: o poema maior (“The United States themselves are essentially the greatest poem”)…


britannica.com


Graça Capinha (Americanista, professora da FLUC e investigadora do CES, trabalha sobre poesia e poética contemporâneas. Coordenou, durante 17 anos, a revista e o curso livre de escrita criativa “Oficina de Poesia”)

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