Ti Pompeu na Casa Branca

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Amável quanto galhofeiro, dotado de assombrosa memória, eis Ti Pompeu, filho querido de Almendra, bandas de Vila Nova de Foz Côa. De manhã ao lusco-fusco lida com os animais e os campos, mesmo escarranchado no velhinho trator azul.

A podar histórias desde os meses de pispineta, falem-lhe de caça que logo fica em polvorosa. O que ele, de caçadeira aperrada, subiu e desceu morros, acintou bicharada de penas e pêlos para oferecer a quem mais carecia ou possidente entronizado no cadeirão do poder. Em Abril passado, no dia da celebração da Senhora do Campo, a festa maior da terra, Ti Pompeu completou 92 anos de vida. E, como em todas essas alturas, comemorou a data na azáfama costumeira: a de zelar pelo solar, jardim e horta, cavalos, olivais e amendoais do patrão.

Dono de uma prodigiosa forma de narrar, ouvir Ti Pompeu é viver o tempo da força braçal da sociedade campesina, da labuta nas searas, do enceleirar dos grãos de trigo, da partida da amêndoa nos baixos da casa, das noitadas no lagar com bordas de pão torradas nas caldeiras e, depois, embebidas em azeite novo. Uma época de sofrimento, trabalho árduo e amargo a troco de dez réis de mel coado.

Eram as montanhas cultivadas até ao rebordo das fragas e a aldeia um corpo pobre, unido, fraterno. Casas e casebres povoadas de gente sob a luz da candeia e aí uma dúzia de tabernas transbordando de ilusões e desforras. Machos, burros e ovelhas, galinhas e porcos e povo a arriar o calhau estrumavam calçadas e cardos.

Enchia-se o sobrado da Casa do Povo para os bailes da mocidade e o lajedo da igreja para o medo do inferno. Mãos em prece. A escola primária, agora fechada por falta de alunos, tinha cento e vinte rapazes e raparigas de olhos postos nas imagens tutelares de Salazar e de Cristo crucificado. Mãos estendidas para a palmatória. Mulheres parideiras iam buscar água com o cântaro à cabeça, lavavam cueiros no ribeiro, partiam para o rebusco da azeitona, ai solidão, solidão e coziam pão no buraco da parede.

Ti Pompeu fala disso tudo. Mil e um pormenores prendendo os ouvidores pelo acento circunflexo dos colarinhos. E volta à caça, antigamente basta; num só dia dezassete perdizes abatidas que a cadela “Bailarina” lhe trouxe à mão. O coelho para contentar o céu-da-boca do senhor padre, a lebre destinada ao palato do senhor doutor e mais uma peça para paga de favor. E assim e assado alimenta o vício de ainda calcorrear montes e vales, ladeiras e restolho que conhece como as suas próprias mãos cavadas de calos. Tal a freima do tiro e queda que de uma penada levantou voo esta brincadeira:                                                              

Ti Pompeu vai à caça
à caça com pontaria.
Na frente cães de raça
farejando a boa iguaria.
Lá pr´as bandas do Côa
brrr!, revoada voa, voa.
Ti Pompeu coça o nariz
galho de linda codorniz.
Petiz e feliz.

Puuuf! tiro frouxo – só zunzum.
Pum! este poderoso, mas torto.
No restolho caçoa o perdigoto
dançam as lebres o Galandum.
Mirandum, Mirandum.

Pum! Pum! E pum!…
Ao pombo, ao pitéu!
Rápido, já escapa um
a pombardear natinhas do céu.
Foge Pompeu; cai e catrapum!
«Diz a pisar o chapéu:
– Raios parta o jejum
e fartura de cagaréu.        
Réucatrapéu, réucatrapéuréu.

Ti Pompeu volta da caça
de apontar com galhardia.
Retorna pela velha Praça
tocam os sinos Avé Maria.
Senhor, concedei-lhe graça
armai-o sempre de alegria.



Ora aconteceu que a natureza de Ti Pompeu veio escarrapachada nas primeiras páginas do New York Times. Qual fake new, qual carapuça! Verdade. Dia após dia os cidadãos norte-americanos puderam conhecer a essência de Ti Pompeu, as suas vivências, o seu constante labor, a sua humildade estendida em cada gesto. Um homem bom. Simples, cordial, amigo da justiça. Para ele, o Mundo deveria erradicar pobreza e ignorância, guerras e muitas e variadas malquerenças.

Não aos rancores e arrogâncias, perseguições religiosas ou étnicas. Que todos, todos os povos tenham acesso à alimentação, ensino, habitação, serviços de saúde. Reparta-se a riqueza de forma a não existirem colossais fortunas e misérias extremas. Rejeite-se a boçalidade, o insulto, a soberba. Pare-se de agredir e envenenar o planeta, sufocando-o.

Sucedeu ainda que, em face dos candidatos conhecidos para a presidência dos Estados Unidos, os norte-americanos aderiram à índole de Ti Pompeu. Da Califórnia ao Maine, da Flórida ao Minnesota, do Ohio ao Idaho, do Arizona à Pensilvânia choveram votos no homem de Almendra para inquilino da Casa Branca. Gente de límpida consciência respirou de alívio. Nos rostos das multidões em desfile confortava observar sulcos de lágrimas de alegria. Na Casa Branca, finalmente, um presidente educado, sensível, fora dos sistemas vigentes e apenas comprometido com os mais frágeis. Um presidente decente. Não um burgesso.

Já no estado-maior de outras super-potências, o pânico instalado, porquanto as massas populares num ápice reivindicaram governança semelhante. «Somos todos americanos!», o slogan entoado nas mais diversas geografias da Terra. Uma vaga de serenidade e esperança percorrendo os corações de milhões e milhões de pessoas de todas as ideologias, raças e credos. Imparável, o contágio. Vazio, o Twitter.

Ti Pompeu transformara a famosa Sala Oval num pombal de paz hermeticamente fechado a falcões. Triunfara a honradez. Prevalecia o respeito. Até a viatura oficial, a blindada “Besta” foi substituída pelo velhinho trator azul.

Ontem, pelas três horas da manhã gritou o autor desta prosa, após acordar estremunhado: Eu tenho um sonho, «I have a dream».  

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