Times New Roman, 12 pontos, espaçamento 1

Jeswin Thomas (Unsplash)

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Se me perguntassem qual foi a iniciativa mais marcante e inovadora em termos de utilização das tecnologias da informação e comunicação (TIC) no ensino básico e secundário, eu responderia, sem hesitação, que foi o projeto MINERVA, cujo mentor e primeiro coordenador foi o Professor António Dias de Figueiredo. Lançado na já longínqua década de 1980, foi um projeto verdadeiramente revolucionário, com objetivos claríssimos, resultados concretos e um impacto que perdurou muito para além da sua duração.

Não quero, com isto, dizer que nada se fez e nada mudou desde o términus do referido projeto, pois isso não corresponderia à verdade e, portanto, seria injusto para todos os atores do sistema educativo, mas uma boa parte da mudança que se operou no sistema ocorreu por arrasto, como consequência da inexorável evolução tecnológica que levou a que quase nada nos dias de hoje possa ser feito sem recorrer às TIC. Usam-se ferramentas mais sofisticadas e processos mais expeditos, tira-se partido de todo um manancial de informação, chega-se mais longe, mas tudo isso acontece porque não existe outra forma de fazer as coisas, porque não se consideram sequer alternativas.

Estava, há poucos dias, a ver o noticiário quando, à boa maneira do jornalismo de sensação, a frase inicial de uma das peças me chamou a atenção: até 2024 os exames no ensino básico e secundário irão passar a ser feitos em formato digital. Ora aí estava uma notícia que prometia alguma coisa interessante, quem sabe se um projeto com objetivos bem definidos e resultados com impacto na qualidade do sistema educativo desses graus de ensino. Agucei a atenção, ouvi a notícia do princípio ao fim e fiquei desiludido porque a notícia não respondeu a nenhuma das questões que a chamativa ‘lead sentence‘ me tinha despertado. Qual a razão da mudança para o formato digital? O que se pretende atingir? Que melhorias advirão desse novo suporte para os exames? É certo que é fácil intuir que existirão vantagens em termos organizacionais e administrativos, mas que melhorias se esperam para os principais beneficiários do sistema educativo, ou seja, os alunos? Os exames digitais serão melhores para eles? Porquê? Vão permitir maior fidelidade e equidade na aferição das suas competências? Porquê? Serão mais intuitivos, permitindo que os alunos se abstraiam do suporte no qual realizam os exames e se concentrem em demonstrar as competências adquiridas? Porquê? Qual é, afinal, a motivação para esta mudança?

Pois a nada disso a peça deu resposta. Os poucos entrevistados preocuparam-se em exigir a formação dos professores e em alertar para a falta de equipamentos e a necessidade de bom acesso à Internet. Os jornalistas, por seu lado, ficaram contentes com essas questões e não perguntaram o que deviam. No final, todos, incluindo certamente grande parte da audiência, ficaram, seguramente, entusiasmados com o progresso que os exames digitais representarão. É caso para dizer que a forma se sobrepõe ao conteúdo. Faz-me isso lembrar aquele professor “vanguardista” que exigia que os alunos lhe entregassem os trabalhos feitos em computador, com tipo de letra Times New Roman, de tamanho 12 e espaçamento 1, mas que nunca se preocupou em ensinar aos seus alunos a diferença entre um trabalho com conteúdo e valor e um trabalho que nada vale mas que está, meramente, bem formatado.

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