Traulitada no tronco de Natal!

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Quando era miúdo, uma das minhas tradições de Natal favoritas era a construção do presépio. Ir buscar musgo ao pinhal para criar uma planície verde, cortada por um rio e uma ponte. José, Maria e o Deus menino saltavam da caixa para a manjedoura, com a companhia do burro e vaca debaixo do telhado. Fora, pastores com os seus rebanhos, a aguadeira de cântaro na cabeça, os reis magos quase a chegar. Um mundo em miniatura. O que eu não imaginava é que nos presépios catalães vive alguém apanhado num momento muito inesperado, literalmente de calças na mão.

Escondido, às vezes atrás de um arbusto, outras de um edifício e — quem sabe — até a céu aberto, aparece um homem. De chapéu vermelho — parecido ao nosso barrete campino — camisa branca e calças negras, este típico camponês catalão está agachado a realizar uma atividade natural, mas pouco comum num presépio: defecar.

O caganer (“cagão”) é presença habitual nos presépios, seguindo a lógica de que ter alguém a obrar no presépio traz sorte para o ano seguinte, nem que seja a de ter a terra bem fértil. Embora exista um conceito similar nalgumas zonas de Portugal, eu nunca o tinha visto e surpreendeu-me a variedade de figuras disponíveis. O que eu descrevi é o mais típico, mas, hoje em dia, encontram-se caganers de tudo e todos — e nada é sagrado.

Por exemplo, imaginem que querem abençoar o vosso presépio com um santo convidado. Quem melhor que o Papa Francisco? Sim, em formato caganer! Falta um toque de classe e realeza? Bem-vinda caganera Isabel II! Mesmo personagens que a quem normalmente não faria falta defecar escapam, já vi caganers de robôs de Star Wars e, até, do Pikachu.

Contudo, a sensibilidade de quem está contra o humor escatológico não é a única vítima do Natal catalão. Essa triste sina cabe ao pobre Tió de Nadal (Tronco de Natal). Esta sorridente figura é um tronco redondo, com um largo sorriso e grandes olhos pintados, também com o barrete típico catalão na cabeça e cuja vida até começa de maneira auspiciosa.



Perto do início do Advento, o tronco é trazido para dentro de casa, as crianças desenham-lhe a cara e cobrem-no com uma manta para que não tenha frio. Cada noite, dão-lhe de comer. Não parece uma vida má, pois não? Até que chega a noite ou dia de Natal. Nesse momento chega a hora de “fer cagar el Tió de Nadal” (não vou traduzir): os pequenitos pegam em paus e batem no tronco, cantando uma canção, até que este lhes dá pequenas prendas, sobretudo chocolates e guloseimas.

O ataque ao pobre tronco, um símbolo da natureza adormecida durante o inverno, tem origens pagãs. Bater-lhe seria uma maneira de acordar a natureza e assegurar um ano com abundância. Como muitas das tradições à volta do Natal e do Solstício de inverno, representa não só o fim de um ciclo e o início do seguinte, mas também uma história real de resiliência cultural já que a tradição tinha caído em desuso e voltou em força na década de 60.

Tradições escatológicas são engraçadas, mas é curioso que a palavra exista com dois significados muito diferentes: escatológico pode referir-se não só a coisas relacionadas com fezes mas também a doutrina sobre o que acontece depois do final do mundo. Ou seja, a etimologia difere já que os significados têm origens em palavras diferentes, mas, este ano, ambos parecem válidos.

De uma maneira ou outra, considerando que 2020 nos apanhou de calças na mão e gostaríamos de dar-lhe muitas pauladas, estas duas tradições são ideais para terminar o ano e animar-nos, deixando a fagulha da esperança acesa para 2021.

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