Um sonho na presença da razão

Adam Zagajewski com o seu gato ‘Doncia’ em 2017 (fotografia de Lisbeth Salas)

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Numa entrevista a Svetlana Gutkina, publicada em Culture.PL, 2019, é lhe perguntado como definiria Poesia. Leiamos a sua resposta:

Inclino-me para uma velha definição formulada por um poeta e filósofo jesuíta italiano no início do século XVIII: A Poesia é um sonho na presença da razão.

Gosto muito dela pois contém dois elementos – algo rebelde ligado à imaginação e aos sonhos, todavia controlado pela razão. Uma espécie de diálogo com a imaginação.


Sobre escrever muito sobre a infância, diz Adam Zagajewski:

Escrevo sim, mas não sou o único a achar que a Poesia não existe sem a infância. A infância é a poesia da vida.

Todos têm o seu dom quando crianças; uns perdem-no, mas outros mantêm-no.


Já sobre alguns aspectos formais:

Na verdade, as rimas irritam-me, um pouco como o sino a chamar para nos ajoelharmos na igreja. Não gosto de rimas e, mais, são uma invenção recente. Só foram descobertas na idade média, enquanto que nas poesias grega e latina e nos salmos bíblicos não aparecem rimas, contagem de sílabas ou métrica.

Nos versos livres tento abarcar a riqueza da forma usando imagens e metáforas. Não gosto de poesia livre seca, em que basta escrever frases em colunas para criar um poema. Não chega; descrições e metáforas têm de ser criativas. Sem metáforas a poesia não me interessa. A alma da poesia não é nem a rima nem o tamanho dos versos, mas a metáfora. Tem de dar-se à linguagem uma riqueza que os artigos de jornal ou mesmo a prosa desconhecem.


É, quanto a mim, um poeta extraordinário. Ele e Charles Simic são os dois poetas cujos nomes me ocorrem, todos os anos, quando o Prémio Nobel é atribuído. Neles reconheço beleza e importância.


3 poemas

Jardim do Luxemburgo

Os blocos de apartamentos parisienses não temem nem o
[vento nem a imaginação
– são pisa-papéis pesados,
a antítese dos sonhos.

Barcos brancos vão pelo rio, cheios de pessoas
que exigem saudações àqueles que estão na margem;
o seu alvoroço aniquila o passado.

Um casal de turistas ricos emerge de um táxi
com roupas cintilantes; servem-nos empregados
vestidos de fraques que a moda não altera.

Mas o Jardim do Luxemburgo está a esvaziar-se
e fica um gigante herbário mudo;

Esqueceu todos aqueles que um dia
passearam pelos seus caminhos e não notaram que já
[não estão vivos.

Mickiewicz viveu aqui e além August Strinberg
trabalhou sobre a pedra filosofal
que nunca encontrou.

Entardece. Noite solene, taciturna e preocupada,
chega de leste.
A noite vem da Ásia e não faz perguntas.

Ser estrangeiro é óptimo, uma alegria fria.
Luzes amarelas iluminam as janelas para o Sena
(uma coisa mesmo enigmática: as vidas dos outros).

Eu sei – não há mistério aqui agora.
Mas há plátanos, praças, cafés, ruas acolhedoras
e o olhar luminoso das nuvens que vai esmorecendo.

(com base na versão inglesa de Clare Cavanagh)


Auto-estrada

Tinha doze anos talvez.
No ferro-velho por baixo do viaduto construído
por Hitler eu buscava relíquias daquela guerra, relíquias
da idade do ferro, baionetas e capacetes de um exército
qualquer, não ligava, sonhava com grandes achados –
tal como Heinrich Schliemann em tempos
andou à procura de Heitor e Aquiles na Ásia Menor,
mas não encontrei nem ouro
nem baionetas, apenas ferrugem por todo o lado,
o ódio castanho da ferrugem; receava
que pudesse penetrar o meu coração.


Lápis

Os anjos já não têm tempo para nós;
trabalham agora para as gerações futuras,
inclinados sobre cadernos escolares
escrevem e apagam, corrigem
complicados esquemas
da felicidade futura
com um lápis grosso,
amarelo, na boca,
tal e qual as crianças no primeiro dia de escola
sob os olhos da professora
que sorri bondosamente.

(Auto-estrada e Lápis foram traduzidos com base em versões espanholas de Xavier Farré)

(Adam Zagajewski morreu a 21 de Março de 2021, altura em que este pequeno perfil já estava organizado.)


Francisco José Craveiro de Carvalho (poeta e tradutor; é professor jubilado de matemática)

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