Uma Barcelona de livros, rosas e dragões

rbsh

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Quando São Jorge matou um dragão, estava longe de imaginar que se tornaria um dos santos mais populares da Europa. OK, se calhar não matou mesmo um dragão — e, muito provavelmente, estava demasiado ocupado a ser torturado por Romanos para preocupar-se pelo seu legado — mas é espantoso como um soldado da Capadócia acabou por ser alvo de devoção em tantos sítios diferentes. O santo é patrono do exército português, cujo lema ainda hoje é “Portugal e São Jorge!”, e de vários países, cidades e regiões, numa lista que inclui Inglaterra (possível origem do grito de guerra português), Grécia, Geórgia, Beirute, Moscovo e, como não podia deixar de ser, Catalunha.

Todos conhecemos a imagem do cavaleiro a matar um dragão com a sua lança ou espada mas, como acontece com todas as lendas, não sendo possível identificar a origem dos eventos, os catalães ajustaram-na à realidade local. Por aqui, Sant Jordi (São Jorge em catalão) foi um cavaleiro que um dia chegou a Montblanc (perto de Tarragona, a sudoeste de Barcelona) e encontrou a povoação sitiada por um feroz dragão. Os locais, para matar a fome da besta, começaram a oferecer-lhe animais e, quando isso não chegou para saciar o dragão, criaram um sorteio para escolher um tributo humano. Todas as pessoas estavam sujeitas ao sorteio, incluindo nobres e família real, e ditou a sorte que a filha do rei fosse escolhida para ser comida pelo drac (dragão em catalão).

No último momento, Sant Jordi entra em ação, salva a rapariga e conduz o dragão até às portas de Montblanc, onde o mata com um golpe no coração. Do sangue caído da ferida mortal brotou uma roseira, da qual Sant Jordi cortou uma rosa vermelha que ofereceu à princesa.

Todos felizes, exceto o drac, e como as histórias são um elemento estruturante da sociedade, a lenda ainda hoje tem um lugar de honra na Catalunha. Cada 23 de abril — dia no qual morreu Sant Jordi — a cidade cobre-se de rosas vermelhas que os homens compram para dar às suas companheiras. Um santo mata um dragão e acaba por criar o Dia de São Valentim catalão! Tradição antiga: já no século XV havia uma feira de rosas dedicada ao santo, a qual era muito popular para jovens casais a ponto de casar-se.

Contudo, as histórias nunca ficam quietas e, depois de algumas iterações, no final do século XX o dia Mundial do Livro caiu na mesma data dado que 23 de abril é também o dia da morte de William Shakespeare. Dia dos Namorados e do Livro no mesmo dia? Tem fácil solução: celebram-se os dois ao mesmo tempo.

É um encontro feliz entre a literatura e o carinho. À venda de rosas vermelhas juntaram-se mesas onde se vendem livros e a tradição passou a ser de que enquanto os homens ofereciam rosas às donzelas, elas ofereciam livros de volta. Hoje em dia, as pessoas aperceberam-se da injustiça e oferecer apenas uma rosa já nem sempre é suficiente. Todas as pessoas merecem receber livros (que, verdade seja dita, até duram bastante mais do que flores).

Admito que, enquanto escrevia esta crónica, fiquei triste pelo dragão. Afinal de contas, sem ele, não haveria nada para celebrar. No entanto, apercebi-me que o drac acabou por ganhar o confronto com o santo. Enquanto Sant Jordi tem um dia por ano, em Barcelona todos os dias são dias do dragão. Existem mais de 400 modelos ou de estátuas de dragões espalhadas pela cidade, se olhamos à nossa volta é complicado não tropeçar num drac. Desde a imagem clássica com São Jorge até versões mais exóticas (como dragões ao estilo japonês ou chinês), há para todos os gostos e Gaudí é responsável por muitos deles.

A Casa Batlló — um dos edifícios mais emblemáticos da cidade — tem um telhado colorido similar ao lombo de um dragão. Até a conhecida estátua do Parque Güell que ilustra este texto — que eu sempre pensei ser um lagarto (e alguns chamam de salamandra) — é também um drac. Por isso, ninguém sai a perder: quando se mistura amor e cultura, até os dragões têm direito a um final feliz.

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