Uma luta difícil

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Quando analisamos as mudanças na sociedade atual provocadas pelas tecnologias da informação e comunicação (TIC) não podemos deixar de nos maravilhar e, simultaneamente, preocupar. A par do vertiginoso aparecimento de um ‘admirável mundo novo’ onde a comunicação e o acesso à informação são generalizados, tomos somos conscientes de uma diminuição da privacidade, quer seja de forma involuntária quer, surpreendentemente, voluntária.

Hoje em dia é muito difícil não ser vigiado. Se entramos numa loja ou estamos num espaço público, provavelmente estamos a ser gravados. Se acedemos à Internet, tudo o que fazemos fica registado pelo operador de telecomunicações dado que, legalmente, este tem que guardar informação sobre os acessos dos seus clientes durante determinado tempo. Se compramos algo, as compras ficam registadas para possibilitar publicidade direcionada. Se vamos correr ou passear, alguma App se encarrega de registar o nosso trajeto bem como uma série de outros dados, que enviará não se sabe bem para onde (uma elevada percentagem de Apps recolhe, processa e envia dados sem autorização do utilizador). Achamos fantástico que as autoridades tributárias recolham automaticamente dados sobre todas as nossas transações, porque isso nos poupa muito trabalho. De facto, com toda essa informação seria possível traçar um perfil tão exato de cada um de nós que nos surpreenderíamos se o víssemos. E, falando de perfis, nas raras ocasiões em que nada disto se passa, somos nós que colocamos informação sobre nós próprios nas redes sociais, para que nada fique escondido: o que comemos, onde fomos, com quem, do que gostamos e o que odiamos, o que queremos fazer, o que nos vai na alma. Sim, nem a alma escapa!

Uma empresa americana começou recentemente a implantar microchips nos seus funcionários, na zona subcutânea entre o polegar e o indicador esquerdos, o que evita a necessidade de utilizar nomes e palavras passe para acesso a serviços, elimina a necessidade de pagamentos em dinheiro nas máquinas de vending e permite uma localização constante do trabalhador. O que falta mesmo é que esta política seja adoptada por algum governo que legisle a obrigatoriedade de implantação de um microchip à nascença. É fácil antever as enormes “vantagens” em termos de identificação, acesso a serviços públicos como saúde e educação, obrigações fiscais, pagamentos eletrónicos e controlo de todo o tipo de atividades. De facto, muito disto já existe, com recurso a várias soluções não integradas. Só falta mesmo o microchip, como medida simplificadora.

Alguém defenderá esta ideia, num futuro mais ou menos próximo, quanto mais não seja com o argumento de que quem não deve não teme. Só que, neste caso, compete-nos a todos, devedores ou não, lutar para que isso nunca aconteça. A avaliar pelo “andar da carruagem”, será uma luta difícil.

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