Vacina brasileira contra covid-19 abre esperança num país destroçado

Produção de vacina em Bio-Manguinhos (Foto: Bernardo Portella)

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O Brasil vive um momento único em sua história. Após pouco mais de um ano do início da pandemia, mais de 255 mil vidas foram perdidas para a Covid-19 no país. Nesse ambiente de luto e incertezas, a vacinação e as instituições brasileiras produtoras de vacinas em larga escala, como a Fundação Oswaldo Cruz (Rio de Janeiro) e o Instituto Butatan (São Paulo), são depositárias da esperança por dias melhores.

Em vista da crise provocada pela emergência sanitária, sinalAberto foi ouvir  Priscila Ferraz Soares, vice-diretora de Gestão e Mercado do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos – Bio-Manguinhos, a fábrica de vacinas da Fiocruz, instituição que estabeleceu uma parceria com a AstraZeneca/Oxford para a transferência de tecnologia para produção 100% nacional. Em breve, afirma a responsável, a aplicação de uma “gestão integrada de todas as frentes” de trabalho vai permitir obter os resultados positivos por que todos anseiam. De resto, sublinha a mesma responsável, “o desenvolvimento de uma vacina nacional é prioridade da Fiocruz, e a Fundação tem diversas frentes neste sentido”.

Um dos protagonistas no enfrentamento da pandemia, Bio-Manguinhos vem, desde o início da tragédia humanitária, atendendo às demandas do Ministério da Saúde, ao qual a Fiocruz é subordinada. Em março de 2020, quando os primeiros casos de Covid-19 foram detectados no Brasil, “Bio”, como é chamado o instituto, juntamente com o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP), desenvolveu e produziu 30 mil kits de diagnóstico (testes PCR-RT) para distribuição na rede de laboratórios públicos do Sistema Único de Saúde (SUS) de todo o país. O trabalho incluiu o treinamento das equipes para uso desses kits.

 “Além da produção dos kits, Bio-Manguinhos participou ativamente da ampliação da capacidade de testagem dos Lacens (laboratórios públicos de saúde). Implantamos mais de 30 plataformas automatizadas operacionais em diferentes estados para agilizar os resultados dos testes”, conta Priscila.

A experiência no fornecimento, há mais de dez anos, do kit NAT brasileiro para diagnóstico de HIV, Hepatite B e Hepatite C, que testa todas as bolsas de sangue da rede pública brasileira, foi fundamental.  Essa experiência e a capacidade produtiva de “Bio” permitiram o escalonamento da produção de três mil, para 500 mil testes PCR por semana.

“Vale ressaltar que, em paralelo a todas estas iniciativas, mantivemos nossos compromissos com o Ministério da Saúde em relação a vacinas, kits e biofármacos. Esses resultados decorrem de outro importante fator propulsor, que é o grande compromisso dos nossos trabalhadores com a saúde da população brasileira”, ressalta Ferraz.


Priscila Ferraz, vice-diretora de Gestão e Mercado de Bio-Manguinhos

sinalAberto — Com a emergência sanitária provocada pela pandemia, o que Bio-Manguinhos e outras instituições semelhantes, públicas ou privadas, levariam alguns anos para produzir tem sido feito em pouquíssimos meses. Pode falar sobre essa experiência?

Priscila Ferraz — Um laboratório público como Bio-Manguinhos/Fiocruz, no contexto da Administração Pública Brasileira, enfrenta uma série de desafios adicionais para a mobilização e execução de atividade em tempo recorde, em função das exigências legais, com prazos específicos, para contratação de pessoal e aquisição de insumos e equipamentos. Isso exigiu planejamento refinado, uma vez que a pandemia demandou que abríssemos diversas frentes de trabalho, com menos trabalhadores disponíveis, em razão dos grupos de risco ou afastamentos por saúde.

No aspecto da gestão, além do alinhamento com o Ministério da Saúde, destaco fortemente um trabalho de integração das equipes internas, colaboração em rede com outras unidades da Fiocruz e instituições públicas e privadas, foco e priorização nas iniciativas de enfrentamento da pandemia, e o senso de missão pública do nosso time interno.


sAA emergência imposta pela pandemia demandou a colaboração de Bio-Manguinhos com atores privados, sem fins lucrativos e a academia? Pode dar exemplos dessas parcerias e de como têm sido executadas?

PF — De fato, colaboração é um dos conceitos-chave do enfrentamento desta pandemia, não só em Bio-Manguinhos, mas no mundo. Poderíamos citar vários exemplos, desde a integração com o nosso laboratório de referência nas Américas, o Instituto Oswaldo Cruz, e com os laboratórios centrais de saúde pública; o desenvolvimento dos testes moleculares para a Covid-19, que são distribuídos para a rede pública; e a parceria com a Universidade de Oxford e a AstraZeneca para a transferência de tecnologia da vacina para a Covid-19.

Podemos citar outras parcerias de desenvolvimento de testes sorológicos nacionais com a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Universidade Federal de Minas Gerais, desenvolvimento de uma vacina de RNA nacional com o SENAI CIMATEC, entre outras. E não podemos deixar de citar nossa participação nos estudos clínicos “Solidarity”, da OMS, para identificação de medicamentos e vacinas eficazes.


sA — Bio-Manguinhos pretende produzir em 2021 mais de 200 milhões de doses da vacina do laboratório AstraZeneca/Oxford. Como se dará essa transferência de tecnologia?

PF — Bio-Manguinhos tem um histórico de transferência de tecnologias desde a sua criação em 1976, e tem em andamento a incorporação de vários produtos estratégicos para o SUS. O processo de transferência de tecnologia ocorre em etapas, iniciando pela importação do produto acabado, com rotulagem e embalagem, passando pela absorção das tecnologias de processamento final e controle de qualidade, até a produção do IFA (ingrediente farmacêutico ativo) que garante autonomia para a produção totalmente nacional.

Nossa parceria com a AstraZeneca está sendo feita em duas grandes fases: a produção, controle de qualidade e fornecimento de 100,4 milhões de doses da vacina ao Ministério da Saúde, a partir do recebimento da IFA da AstraZeneca; e o fornecimento ao ministério de 110 milhões de doses no segundo semestre, com a produção 100% nacional da vacina proveniente da transferência de tecnologia da AstraZeneca.

Especificamente para esse projeto, em função da variável “tempo”, que é crítica, montamos uma estrutura dedicada de gestão de todo este processo, envolvendo não apenas a transferência de tecnologia em si, mas a gestão de todos os recursos necessários (recursos financeiros, compras, contratações, etc.), a gestão de todas as adequações de infraestrutura necessárias, e a estratégia regulatória, em parceria com a agência regulatória, a ANVISA. É a gestão integrada de todas estas frentes que permitirá alcançarmos os resultados.


Edifício-sede da Fiocruz, para quem desenvolvimento de uma vacina nacional é uma prioridade.

sAA Fiocruz já tem projeto de pesquisa para o desenvolvimento de vacina contra a Covid-19 totalmente brasileira?

PF — O desenvolvimento de uma vacina nacional é prioridade da Fiocruz, e a Fundação tem diversas frentes neste sentido. A pandemia escancarou a necessidade de o Brasil ter autonomia, não apenas na produção de insumos críticos em saúde, mas na capacidade e na competência tecnológica instalada para lidar com as incertezas de crises sanitárias desta natureza, a partir do desenvolvimento e melhoramento destes insumos. Apenas em Bio-Manguinhos, atualmente, temos cinco iniciativas em andamento, três em parceria com outros institutos/organizações e duas totalmente internas, desenvolvida em Bio-Manguinhos. Estamos tratando com total prioridade estes projetos.


sA — Tem se falado muito sobre uma possível oposição entre economia e saúde. Ou seja, alguns gestores públicos afirmam que se optarmos por lockdowns e suspensão de atividades para poupar vidas, o país “quebra”. Guardadas as devidas ressalvas, economia e saúde não deveriam ser consideradas, dentro de um contexto ético, conciliáveis?

PF — O Brasil tem o maior Sistema Universal de Saúde do Mundo, o SUS, e a saúde corresponde a 9% do PIB do país, gera mais de nove milhões de empregos diretos e envolve 30% do esforço nacional de Pesquisa & Desenvolvimento. Apesar de alto potencial de estímulo da economia e do emprego, ainda é um setor com um grande déficit na Balança Comercial do Complexo Econômico da Saúde. Então, sem dúvida, a saúde é um componente crítico da economia.

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