Valete, poeta dos subúrbios: “muitos poucos portugueses têm noção de quantos escravos morreram no tempo do Império Colonial Português”

Global Media/Gustavo Bom

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O sangue são-tomense corre-lhe nas veias, mas o corpo de Keidje Torres Lima é lisboeta. Viris ou Valete – como é conhecido – nasceu na nossa capital já com saudades da terra dos pais. No ano em que faz 40 anos, ouvido em qualquer país lusófono, é um dos símbolos do Hip-Hop da língua portuguesa. O adorno e força das suas letras deram-lhe o estatuto de gigante. Marca insuficiente quando comparada à coragem dos seus versos. Para sermos justos, nos adjetivos, teríamos de desperdiçar substantivos que ilustram uma carreira de choque e indelével. Uma carreira à medida de um génio.

Aos dezasseis anos deu os primeiros passos no caminho em que ficou para a vida – o da música. Foi com mais dois intérpretes, Bónus e Adamastor, que lançou o Canal 115 e fundou a Horizontal Records. Em geografia, horizontal é uma linha reta imaginária cuja direção é paralela ao horizonte terrestre. O périplo da sua intervenção tem esse sentido. O desejo de que o mundo e a sociedade caminhem lado a lado.

Na senda do amor há espaço para refletir. Acredita que a “expansão sentimental” dá-nos “capacidade de amar com a mesma intensidade tudo o que existe na natureza”. Suporta, assim, um coração que não espera a chancela de apenas outra metade. Pretende evitar os excessos do “amor monogâmico”, capazes de ferir qualquer um. Confia ser uma vacina para “fugir do sofrimento”. É o que sente, o rapper, obstinado à “obsessão” vulgar dos relacionamentos tóxicos e convencionais.

Enquanto o amor se liberta das próprias teias, distingue que “os amigos são poucos”. Mas os amigos, por outro lado, dizem que Valete é muito. Diogo Calheiros trabalha nos serviços prisionais e de reinserção para jovens. É amigo do rapper desde a adolescência, mantendo uma ligação próxima e contacto. Destaca que o artista sempre foi “muito talentoso”, “ muito inteligente” e “muito solidário”. Deu sempre o sim, quando lhe foi pedido fazer trabalhos pedagógicos nestes estabelecimentos. Sim contra a indiferença. Sim contra a tirania. Sim contra a marginalização.

Valete faz canções que atingem o púlpito da opulência do poder. Assombrado pelo cheiro da corrupção, é nas entranhas da política que acerta, quando a voz lúcida que transporta se assume, acompanhada de diversas batidas que iluminam quem ouve. Valete explica que só é capaz de executar grandes obras quem “tem um amor profundo pelo seu ofício”.

Razão para referir “Mickael Jackson e Gabriel, o Pensador”, como as suas maiores influências. Já no que respeita a filosofia, identifica-se com o culminar do (des)propósito existencial de Schopenhauer – “faz sentido e acho que reconhecermos essa insignificância nos torna mais felizes”, diz. Regressa ao passado na universidade, no curso de comunicação em que obteve diploma, e à cadeira de Ciência Política que o aproximou dos pensamentos de Rousseau.

É no iluminismo e na ilegitimidade da escravatura – que o suíço desenvolveu na obra “O Contrato Social” – que o espirito de Valete se materializa. Em 2002, dá os primeiros sinais. Chega o seu álbum primogénito, com o nome “Educação Visual”. Dentro do grupo de narrativas podemos escutar temas como “Nada a Perder”, amplificador da ideia de segregação social como produto do sistema. Um lançamento a solo e independente (com algumas colaborações), que traduz a sua dimensão mais “solitária e eremita”, perpetuando-o no meio como alguém que vai além do freestyler ou mc battle. Ganha o respeito e conquista a audiência com a sua pertinência social. Alcança o estatuto de rapper. Conquista um lugar no palco.

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Keidje cresceu nos subúrbios da capital, impelido pela noção empírica do contexto, foi encontrando no Hip-Hop o refúgio e a caverna de sentimentos apaziguadores. Os olhos do artista têm essa cor – a de luta. Talvez essa proximidade, com meios menos abastados e mais pobres, o tenha tornado numa alma “muito melancólica”, como diz ser.

Todavia, é em 2006, com o segundo álbum – “Serviço Público”-, que sorri e consagra a sua génese de combate e o papel como ativista e cantautor. Completo de malhas anticapitalistas, “O fim da ditadura” – uma das faixas – é uma estória contra o imperialismo americano. Viris reúne-se num congresso imaginado, com Saramago, Mia Couto e Chomsky, diz ter visto por lá Fidel Castro, Chavez e Kadafi, e veste papel de protagonista para derrubar o regime neoliberal, na altura liderado por G.W. Bush. Foi sempre assim, intrépido e descomplexado com a violência dos argumentos, que o damaiense aplicou a escrita das suas estrofes.

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Ao falarmos de atos mais ostensivos, o músico menciona que as estátuas, com cariz colonialista e vandalizadas no último ano, foram “vítimas da inação política”. Para Valete, o risco da letargia resume-se no “exagero de grupos mais radicais”. O poeta dos subúrbios não desarma e é com esperança que coloca a voz, realçando 2020 um ano “muito importante para o problema do racismo em Portugal”.

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Nas suas palavras, “há alguma pobreza intelectual no debate público, causando muita fricção”. Prova disso é uma das suas novas músicas, “Rua do Poço dos Negros”, em que Valete levantou a celeuma e a discussão. O conteúdo é desenhado por provocações, demonizando figuras colonialistas, especulando um Dom José pior que Estaline. Apesar de ter sido acusado por uma esfera que não gostou do tema, o rapper garante: “a desinformação sobre o período é tanta, que são muito poucos os portugueses com noção de quantos escravos morreram no tempo do Império Colonial Português”.

Governa-se com esse princípio, o da responsabilidade de desmistificar um trauma, que o eterno ensaísta Eduardo Lourenço chegou a referir na sua obra -“Labirinto da Saudade”-, como um dos maiores da nossa árvore genológica. Para os que teimam em não aceitá-lo, há um recurso: Uma desconstrução.

Valete julga que “o fator genético está impregnado no nosso comportamento”. Sendo urgente admitir a “doença” e “entrar num processo de cura”. Destaca o “ Lugar de Escuta” e o “Lugar de Fala” conceitos nucleares à resolução do problema. O primeiro debruça-se, para os que padecem da cólera, em “ouvir sem paternalismos aqueles que foram e são vítimas de racismo”. O segundo é precisamente dar voz a quem sofre na pele a discriminação.

O seu papel no Rap é fundamental para preservar o espírito crítico. É uma bússola nos meandros da civilização suburbana. Sente, com âmago ferido, que ele e mais dois ou três rappers são cruciais para o ambiente do Hip-Hop não ficar “liricamente vazio e infantiloide”. O desguarnecimento e o ensandecimento das letras é o reflexo de uma sociedade que sempre temeu. É a dor que o nunca abandonou. É também motivo pelo qual não cessa.

Antes da espinhosa aventura na vida de MC, chegou a manter relações com a Juventude Comunista Portuguesa, mas cedo preteriu esse casamento. Foi na música que decidiu arremessar manifestos contra as injustiças do mundo. Não é devoto a nenhuma religião, mas é sagaz sobre o poder da fé: “o importante é que cada um encontre os seus instrumentos para chegar à paz”. Objetivo para ele difícil, que transforma a caneta em foice, e o microfone no escudo de um soldado numa guerra sem fim.

A resiliência e a destreza são retribuídas. Os elogios, nas caixas de comentários das suas músicas – no Youtube -, alongam-se e primam pela versatilidade. Mas é amiúde os que realçam a sabedoria e o raro campo lexical que trouxe ao Rap. Contudo, Valete compreende que o conhecimento deve mais ao traquejo do que à teoria. Cisma sem pudor: “Vês esses intelectuais a opinar sobre fenómenos sociais em países onde nunca estiveram, sobre realidades que nunca experimentaram”. Galardoa os que conhecem a crueza da fauna e não se reputa mais do que um “simples rapper dos subúrbios”. 

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Joga com o tempo, brinca com as palavras e mantém a humildade que o caracteriza. Está cada vez mais fértil e pleno. O título o “1º MC Português” – produzido por Baghira & Mr Break, em 2018 – é um storytelling em formato de curta-metragem,cheio de simbologia sobre o nascimento e desenvolvimento da cena Hip-Hop em Portugal. A letra de Valete percorre vários momentos e sensações de desígnios diáfanos, sem qualquer cortina sobre a sua interpretação aos acontecimentos. Deambula numa narrativa cinematográfica recheada de analogias e metáforas. Soma quase dois milhões de visualizações. É um hino à criatividade.

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Sobre a possibilidade de escrever um livro, recusa-se a avançar sem ponderação. É com “respeito” que olha para os escritores, e não quer “inundar” o espaço das livrarias “congestionadas por publicações de celebridades e fast-food”. Se um dia penejar alguma coisa, será para “engordar positivamente o panorama literário. Poderá ser “algo relacionado com o Hip-Hop”, afirma. Se na escrita engorda, fisicamente segue o caminho inverso. Hoje, refere “ter mais cuidados com a alimentação”. Um atributo da maturidade de um homem que sempre vestiu roupas largas.

Valete é rapper, poeta, cantautor e ativista. Armou-se do talento e dedicou-se ao trabalho. Conta com mais de vinte participações em álbuns e mais de uma dezena em mixtapes. A vida é o baralho. O seu naipe é o hip-hop. A cartada é o texto. Numa das suas mais recentes faixas (colaboração com Phoenix RDC e Virgul), o refrão cantado é este: “O Olimpo fará de mim um rei, é a minha missão ir até onde a minha força deixar, lá bem longe onde eu possa brilhar, chegar ao céu para poder ser Rei”. Talvez. Mas não foi preciso chegar ao céu para ser Valete.

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