Vem aí… um novo Salazar. não passará

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Aos 14 anos, em viagem de estudo liceal, visitei a Universidade de Coimbra (onde mais tarde fui aluno), a inevitável Sala dos Capelos (onde mais tarde me doutorei) e a área envolvente integrada no designado Pólo I (onde mais tarde me manifestei contra o fascismo). Estavam em destaque nas vetustas paredes dos espaços nobres frases do ditador Oliveira Salazar e a apologia do Estado Novo.

Iniciei a minha carreira médica, já lá vão 44 anos, pós-PREC, praticamente no então Hospital de Santa Comba Dão, com actividade clínica em dias úteis, e deslocando-me todos os domingos durante 8 meses para realizar rastreios de hipertensão arterial e diabetes (aqui me tornei voluntário pro bono).

Convivi assim com os naturais das várias freguesias do concelho, terra de naturalidade de Salazar, desde o Vimieiro, Treixedo, Nagosela, S. João de Areias, Óvoa, Oveiro, Chamadouro e por aí fora, que eram contadores de histórias, alguns eram mesmo saudosistas da figura que se tornou nacional, e havia até quem, semanalmente, colocasse um tronco de oliveira no lugar onde tinha estado um busto de Salazar que tinha sido dinamitado, frente ao tribunal da comarca.



Uma das histórias sobre Salazar que me foi contada, cuja veracidade não posso garantir, tinha um teor romanesco com final rancoroso. Assim, Salazar, filho do caseiro do amo latifundiário, tinha ousado solicitar a “mão” da filha do patrão, ao que este o insultou, questionando-o como ousava fazer tal pedido, quando era apenas um “pés-descalços” que lhe entrava na habitação principal (literalmente, pois os sapatos eram privilégio dos ricos). Conclui a história que, quando Salazar progride na academia e depois se torna ministro das Finanças em Lisboa, legislou expropriando o senhor feudal.



Então Ministro das Finanças, Salazar, quando plebiscita a Constituição de 1933, dizia que o povo não estava preparado para votar, excepto para expressar “um voto de confiança nos dirigentes” (verdadeira aberração, entre outras). Essa Constituição, que fui obrigado a decorar, fazia parte da disciplina de Organização Política e Administrativa da Nação. Ao prestar exame escrito, afirmei que não continha a liberdade de expressão do pensamento, o que me levou a severa reprimenda do director do colégio, penalização com 14 valores (a nota média da disciplina era 19 valores) e ameaça de expulsão.

As leis de Salazar, Presidente do Conselho de Ministros, líder da polícia política (PVDE / PIDE) e auto-intitulado de guardião da “corrupção de costumes”, passavam entre outras, nesta matéria, pela proibição da minissaia no liceu, o direito de o marido matar a mulher em “flagrante adultério”, a proibição da homossexualidade e até um conjunto de punições pecuniárias para quem procurasse folhentas vegetações para a prática de  “mão na mão” (2$50), “mão naquilo” (15$00), “aquilo na mão” (30$00), “aquilo naquilo” (50$00) “aquilo atrás daquilo” (100$00), “com a língua naquilo, 150$00 de multa, preso e fotografado.”

Aproveitando o descrédito da política exercida por alguns peralvilhos que não são estadistas, como meio de promoção social e obtenção de dividendos indevidos ou mesmo acto de corrupção, e logrando a saturação e a intolerância do povo português para o compadrio, o oportunismo e a vigarice de alguns representantes institucionais que denigrem a honestidade e o valor (que também existem), surge proveniente do PSD um indivíduo chega para lá, que propagandeia basta  e se chega para cá, cúmulo da demagogia e perversão, com apoios subterrâneos sem liberdade.



Tal indivíduo, aproveita também os recalcamentos de uma parcela do “bom” povo, que nunca se adaptou à democracia e mantém a ideia do glorioso império, orgulhosamente só, mesmo sem ganho pessoal, e regala-se com uma parcela de uma geração que nada conquistou e a quem tudo foi dado, ou manipula ainda outra parcela que vê na multiculturalidade e na miscigenação o perigo de atentado aos bens ou aos empregos que quiçá não têm, sejam dignos ou capciosos.

Este espécimen, sucessor de Salazar do Século XX que terá caído da cadeira, ou do suposto desejado D. Sebastião, que tinha grande fervor religioso (onde é que eu já vi isto…) e militar, e conduziu Portugal à crise de 1580 e à perda da independência, apresenta as suas ideias (… que ideia!), tão retrógradas e torpes em direitos humanos que até dói.



É contra a Constituição de 1976, contra os serviços públicos na educação, na saúde e vias de comunicação e transportes (mas vê-se a ele próprio como um serviço público na autoridade tributária), contra a multiculturalidade, contra os imigrantes, contra os ciganos e outras minorias étnicas, contra o aborto, contra a homossexualidade,

Mas será que é a favor de algo que contribua um mundo melhor, que construa sentimentos de igualdade, generosidade e solidariedade, que generalize direitos humanos?

Afinal, é a favor do racismo e da xenofobia, a favor da castração química, a favor do semitismo, a favor do crime de ódio, a favor da prisão perpétua, a favor de mais poder para os Estados (ele é o Estado?), invoca o nome de Deus em vão, assume-se radical como elogio.

Como professor, as aulas são sagradas, não aborda a política nas aulas, mas apenas nos “intervalos” (porque lhe perguntam…). Não sabe quanto custa um quilo de açúcar porque não vai a supermercados, nem a centros comerciais, nem a feiras, nem a restaurante, nem sai à noite. Porque é “maltratado”, diz. De facto, ninguém deve ser maltratado. Apenas devia ser ignorado.


Mas há sinais de instabilidade que geram preocupação na regulação política e apresentam potencialidades de desestruturação da sociedade, nível de conflitualidade e razão de ser quanto aos objectivos comunitários e sociais.

Em estudo de base científica que realizámos em 2015, quanto ao grau de importância, os inquiridos consideraram os partidos políticos, quaisquer que fossem, os menos importantes (apenas 36,8% os consideraram moderadamente importantes, importantes e muito importantes, sendo muito importantes apenas para 5,1% dos inquiridos), preferindo as organizações humanitárias (95,6%), os grupos culturais (91,8%), as associações cívicas (88,1%), as agremiações recreativas e de lazer (82,6%) e os clubes desportivos (49,3%).

Os mesmos inquiridos consideraram moderadamente importante, importante e muito importante combater a pobreza e a exclusão social (96,0%), e serem voluntários e apoiantes activos de causas e ideias (93,2%), mas 32,8% dos inquiridos preferiam ignorar os problemas sociais, não correndo riscos desnecessários a fazer actividades a que não eram obrigados, renegando a solidariedade.

Em 2021, na passada semana, foi publicado em Portugal o estudo “Os valores dos portugueses” de Alice Ramos e Pedro Magalhães, do ICSUL, que demonstra a redução de pessoas que rejeitam a autocracia, passando de 50% em 1999 para 37% em 2020, e o número de pessoas que classificam a política como muito importante (8%), abrindo caminho para lideranças autoritárias e pessoas providenciais, agravando a imagem dos políticos e menorizando a democracia como sistema de governação que produz melhores resultados para o povo.


Tão grave como o descrito, surge nesse estudo a selecção de grupos indesejados pelas pessoas, que serão os toxicodependentes (64%), os alcoólicos (62%), os ciganso (59%), os muçulmanos (22%), os homossexuais (22%) os judeus (19%), os imigrantes (13%9 e pessoas de outra “raça” (13%), deixando uma margem mínima para a tolerância, para a multiculturalidade, para a convivência social, para os direitos humanos.

Se esta apreciação em Portugal fosse transportada para o Reino Unido, como seria a regulação da sociedade em Londres, onde apenas 20% dos habitantes são londrinos, sem provocar hostilidade e contendas, destruição do tecido produtivo, quebra da economia social, implosão dos objectivos de Desenvolvimento Sustentável?

Está aí… um novo Salazar. Traumatizado pelas agruras da vida, rancoroso contra quem defende o bem comum, megalómano quanto ao exercício do poder, não sabemos, nem nos importa.



O que nos importa é que, na sociedade humanizada e a humanizar, os democratas, os cidadãos, o povo, saibam o que não querem e saibam o que querem. E não apaguem a memória quanto ao fascismo que existiu, acreditem nos valores de Abril quanto à democracia e liberdade que foram criadas, contribuam para a aliança entre a democracia participativa e a democracia representativa que são a solução.

Não querem ditadores refugiados na opressão, demagogos paladinos da manipulação, tiranos que desconhecem a tolerância, déspotas sem frenação. Querem lideranças de proximidade, responsáveis com aferição, humanistas em sabedoria, condescendência e filosofia, igualdade de oportunidades e justiça, direitos humanos para todas e para todos, democracia e liberdade em progresso social.

Por isso, um qualquer novo Salazar, com reminiscências do passado, truques consuetudinários no presente, e ambições de poder autocrático desmedido no futuro, não passará.

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