Vermelho de sangue nas algibeiras

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Esta é uma série de aguarelas abstratas fortemente policromáticas, que aliás expande a ilustração de título, datada de 2002, que apresentou pela primeira vez o Vladimir em “O nosso Volódia”. É provável que as presentes tenham a mesma data. Todas aparecem em sequência, pintadas em grossas folhas de papel de aguarela 30×30, num bloco de argolas de capas duras azuis Canson.

Parecem conter, todas, um núcleo central sépia, com variações de intensidade, por vezes a raiar o negro. Há manchas de cores solares, tipicamente periféricas. Riscos finos, mas intensos, percorrem o núcleo central, num deliberado processo de arrastamento de tinta, como se o pretendessem negar ou “queimar”.

Emanações vulcânicas, rubras, desequilibram o tormento denso daquele núcleo. Ainda há algum sangue fresco para continuar a viver, parece dizer o autor.

Procurámos, entre os seus muitos poemas, fragmentos literários e anotações diversas, algum texto que nos ajudasse a saber o que Vladimir via nas suas pinturas. Nas pinturas em geral, sublinhe-se, e não necessariamente nos particulares abstratos que agora se oferecem.

Há afinal muito pouco, quase nada, em contraste com o que pensava da atividade poética, que se derrama por longas páginas.

Talvez isto queira dizer que é a arte plástica e não a poesia, para Vladimir-pintor-poeta, que lhe oferece o espontâneo e natural escape para as dores da sua existência, a sublime via de libertação que acontece sem explicação ou justificação, e que, portanto, não necessita de palavras.

(Acabou, no entanto, por usar uma, LIBERTAÇÃO, que aparece bem visível no canto superior direito da “pincelada” inicial do bloco. Nesta – aliás a única em que utiliza o expediente –, Vladimir esconde uma extensa lista de nomes próprios e apelidos de amigos e familiares.)

Transcrevemos aqui uma das raras referências à pintura, de onde extraímos o título deste número. Consta de um caderno de argolas Ambar, A5, de capas duras vermelho-carmim.















Coordenação:

Luís Martinho do Rosário (conheceu e acompanhou a trajetória literária e artística de Vladimir. É professor de biofísica da UC e investigador do CNC)

Cristina Nobre (analisou a obra de Vladimir após a sua morte. É especialista em literatura portuguesa moderna e contemporânea. É professora do IPL e investigadora do CICS.NOVA)

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